Arquivos para o mês de: outubro, 2012

ESTAVA EU conversando com meu colega Stan Molina, quando ele me lembrou do melhor exemplo já inventado para explicar o recurso Deus Ex Machina. Que consiste em resolver abruptamente uma história que até aqui estava muito mal contada. Recurso inventado pelos gregos antigos, que tinham longa tradição de histórias muito mal contadas, Deus Ex Machina é uma alusão ao Deus da Maquina pois era comum em peças gregas um velhote fortão, vestido com um lençol, ser baixado por um guindaste para matar a tudo e a todos, resolvendo definitivamente a trama. Segue o exemplo que explica o recurso em termos tipicamente brasileiros, a novela das sete e pagar pau para gringos:

Um bom americano, quando próximo ao equador, precisa estar sempre munido de um belo de um chapéu Panamá.

Depois de disputar o galã a tapas a novela toda a antagonista trambiqueira, mas não necessariamente má, perde o amor de sua vida para a mocinha. Certamente não era ela que ia terminar com o cara, mas também não era pra coitada ficar sozinha o resto da vida, abandonada na pensãozinha do pai numa vila em Alagoas. Eis que ela está na varanda da pensão, suspirando enquanto vê as jangadas no mar, pensando como odeia esse buraco. Ela olha para o lado e quem ela vê? Direto de Massachusetts um americano bem apessoado, de meia idade, com seu chapéu panamá, um charmoso sorriso por baixo do bigode loiro e uma gorda conta bancária no Bank Boston.

Eles se olham e ele e diz “SEO PAH-IS EH MUY BO-NI-TOH” pimba, Deus Ex Machina, os dois se casam e mudam para a gringa onde ela pode viver seu sonho de princesa. Ou pelo menos é o que o enredo nos dá a entender, talvez o americano sente a porrada nela todo santo dia depois do casamento, malditos yankees. De qualquer forma é uma resolução da história de acordo com o que o público espera, que não tem nada a ver com a trama principal, mas que ata todos os nós que estavam soltos. Em uma trama mais mal resolvida talvez seja necessário um Sultão do Petróleo visitar a pacata cidade, se casar com metade do elenco e levar todo mundo pras arábias, já que a poligamia não é legalizada nos EUA. Malditos yankees.

EU TINHA por volta de 13 anos quando fui a um pesque pague com a minha família. Nada como segurar uma vara, em vão, durante horas a fio para ensinar uma criança a virtude da paciência e a beleza da contemplação. Tava um saco. Eis que do nada surge o meu irmão e meu amigo carregando um bagre imenso, todos ficaram felizes com a captura daquele animal imponentemente feio. Aquele dia aprendi, através do nobre peixe, o que é gana de viver.

Um belo de um bagre não morre, como outras criaturas aquáticas inferiores, apenas por estar fora d’água. Ele PULA e LATE de tão puto que tá fora d’água. Enfim. Estavámos voltando para a civilização e o bagre lá numa sacola. Eis que uma hora meu padrinho ficou puto com o maldito peixe latidor e bateu com ele em um muro várias vezes, bem forte. O bagre morreu? Não, até onde sei ele pode estar vivo até agora, trabalhando nums bicos e morando de favor na casa da irmã até as coisas melhorarem.

Bagre no seco anda, pula e late.

Voltamos para a cidade, ficamos com dó dele e o deixamos num tonel de água. Foi a última vez que o vi. Me disseram que soltaram o bagre no lago do ibirapuera, mas nunca vi provas. Anos depois fiquei sabendo que não foi meu amigo nem meu irmão quem pescou o bagre, um pescador lá achou maneiro dar o peixe para os moleques e assistir eles mentindo para seus amigos e familiares. Mas a imagem que ficou foi a do bagre que não morria por nada. Por isso adotarei dois bagres cruzados no meu brasão, simbolizando a fortitude e a vontade de vida, típicas desse animal teimoso.

Moral da História: Pescadores mentem e, bagres, em condições ideais de temperatura e pressão, são imortais.

ATENÇÃO: Foi revelado o verdadeiro fim do Bagre Imortal. O padrinho da minha irmã deu o bagre para seu motorista, que o levou para a comunidade e fez uma moqueca com ele. O que considero um fim digno para essa nobre criatura. Fonte: Pescador Mentiroso Jr.

QUEM COSTUMA frequentar o maravilhoso transporte público, por obrigação ou à passeio, já conheceu esta figura feliz. O Zagueiro de Porta de Ônibus não tem medo de estar onde deve estar. Importante traço do seu trabalho é fingir não saber que está fazendo o que está fazendo. Seu charme moleque está na ingenuidade que ostenta enquanto está cumprindo seu dever. Dever esse que consiste em atrapalhar a vida do próximo.

O Transporte Público em todo seu esplendor.

Se você já se pegou de pé no corredor do ônibus e uma tiazinha às suas costas te cutucou e perguntou, aflita, “Você vai descer no próximo?”, você estava sendo acusado de Zagueiro do Busão. Espero que ninguém que esteja lendo isso seja um deles, mas se você for, vai se foder cara, vai tomar no canto do olho do seu cu seu filho da puta, eu vo te pegar seu cuzão, eu vou te amarrar numa cadeira de rodas e empurrar de uma escadaria. Enfim. A principal função do Zagueiro do Busão é impedir o direito, garantido por constituição a todo e qualquer brasileiro, de ir e vir.

Ele pode se colocar em inúmeras posições dentro do bus, contanto que seja a melhor para impedir o gol (a porta de saída). Ele não tem classe social ou etnia definida. O que promove um mero passageiro a Zagueiro de porta de ônibus é sua colocação e a gana em continuar aonde está, piorando leve e consideravelmente o dia a dia de seus comuns.

PROVAVELMENTE eu sofro de uma psicopatologia cuja qual eu não havia visto nenhuma descrição ainda. Estou chamando ela provisoriamente de Distúrbio de Otimismo Semioticista, ou DOS. O indivíduo que sofre de DOS é refém de alguns sintomas não necessariamente maléficos para a sua saúde, mas que podem colocar sua vida social em sinuca algumas horas. A principal característica para identificar alguém com DOS é quando ele interpreta algo muito além do necessário e julga que a pessoa que teve a ideia de algo é muito mais genial do que de fato é. A descrição vai ficar clara com o exemplo a seguir:

Apenas uma mente debilitada acha que isso…

Eu estava andando na rua outro dia e recebi um folder de alguma exposição do MASP, eu peguei o folder e olhei atentamente para o logo do MASP. Eu nunca tinha olhado direito para ele. Me deu uma luz “Nossa, que foda, o logo do MASP é baseado no gráfico pluviométrico da cidade de São Paulo!”. Não, o logo do MASP muito provavelmente não é baseado no gráfico pluviométrico da cidade de São Paulo, eu estava sofrendo um surto de DOS. Só uma mente delirante para inventar que um logo que como o falecido logo do Senac e o da TV Cultura, que não passam de um monte de elementos abstratos empilhados, tem tanta semiótica por trás.

…é baseado nisso.

Um dos principais objetivo ao identificar uma psicopatologia é compreender melhor os indivíduos que sofrem delas para tentar reintegrá-los à sociedade. Se você identificar ao menos dois desses sintomas em um coleguinha fique atento:

1. Interpretações exageradas de relações de imagem ou idéias.

2. Identificar inteligência onde ela claramente não existe.

3. Estado de quase transe ao observar objetos e imagens do cotidiano.

4. Ligações forçadas da cultura pop com cultura erudita ou científica.

NADA mais lindo do que o sentimento de “Eu mereço”. Ele nos autoriza a cometer indulgências exorbitantes, como no meu caso recente: “Foda-se, eu mereço um pote de picles de pepino suave da marca Hemmer, só custa R$ 9,34.”. Ele vem da necessidade básica de prazer moral e físico. Moral pois costuma autorizar-se num processo meritocrata, que encaixe em nossa justiça cosmológica.

Mas cuidado, ele não deve ser confundido com o vil “Como Assim Eu Não Mereço!?”. Exemplo: “Meu amigo vai tocar com sua banda cover de The Cramps no Inferno da Rua Augusta. COMO ASSIM eu não sou VIP?”. Esse sentimento é baixo e passa pelas mesmas esferas de merecimento social auto pronunciado, mas se perde no caminho.

ATENÇÃO, todo “Eu Mereço” deve conquistar as quatro virtudes cardeais antes de realizar-se plenamente.

O “Eu Mereço”, de fato, é um processo interno que se exterioriza num rodízio (inferior) de Sushi, num chocolatinho na hora errada, numa cervejinha terça à noite. Ele perpassa as virtudes cardeais e chega do outro lado íntegro, limpo. Se permitir um prazer é possivelmente a maior vitória da vida adulta, um brado de independência, um belo de um “Olá!” para a autonomia autêntica. Só tomem cuidado com o alcoolismo e os quilinhos a mais, meus caros jovens adultos.

NO BUSÃO indo para o trabalho vi do assento, privilegiadamente alto, um cara pintando a fachada do Pão de Açúcar perto de casa. Masseando as imperfeições, passando uma mão de tinta, lixando a massa, passando outra mão. Fiquei com inveja, fiquei com vontade de empurrar a escada onde ele tava pendurado. A coisa, feita física, é muito mais coisa do que o cerebral/espiritual. Ela fica feita, ou mal feita, mas ela já aconteceu, ela é. Ela existe.

O recado do pintor para mim.

Até o safado do Locke desenvolveu sua teoria de propriedade a partir de preceitos parecidos, e é indiscutível como seu argumento é charmoso. Se você deixou algo, que não tinha dono, melhor através do seu trabalho, este algo é seu. Eu senti inveja do pintor/pedreiro que estava deixando a fachada do Pão de Açucar melhor.

Já pintei a minha parcela de paredes na vida, e sei reconhecer que uma parede bem pintada é uma parede bem pintada. Você olha pra ela e diz “Nossa, que parede bem pintada!”. Essa sutileza é perdida no trabalho intelectual. Uma ideia bem pensada é uma ideia desbastada até o fim, é um processo destrutivo, proveitoso por vezes, mas seu resultado não se revela por si só. É muito raro você olhar para algo e dizer com segurança “Eu deixei isso melhor!”. Mas uma parede bem pintada sempre será uma parede bem pintada.

NO SEGUNDO século antes de cristo estava em voga o embate: DOXA versus EPISTEME. Doxa é a crença comum, a opinião popular; as ideias sobre politica do peixeiro no mercado de Atenas, análogas aos argumentos do taxista pró-maluf da decada de ‘90 em São Paulo. Episteme é o conhecimento checado, chato, exato e sábio dos filósofos.

Doxa em Ação™

Em meio a caga-regras e opiniões mais fundadas em manchetes de matérias do que no texto dessas próprias matérias, a internet é terreno fértil para achismos e posições baseadas em cascas de cascas de cascas. É o Reino da Doxa, onde sua hegemonia é divina e irrestrita. E EU ACHO curiosa a incapacidade de ler e interpretar textos em um meio que o texto ainda é a maior forma de comunicação.

Sinto um prazer imenso ao ler um comentário, longuíssimo, de uma matéria que começa com “NÃO LI O texto inteiro, mas acho que…”. Diz muito, diz praticamente tudo. As pessoas parecem precisar ter opinião, o que não é uma necessidade primêva de alguém que se encarrega do trabalho de pensar, que no final das contas é muito mais parecido com trabalho braçal e muito menos glamouroso do que acham. As coisas são confusas, complexas, assutadoras e maiores do que aparentam ser, e é bom que assim sejam. É um prazer imenso, egoísta e nobre, não saber o que achar de algo. Dá um gostinho especial pra vida.