Arquivos para o mês de: novembro, 2012

VENHO AQUI explicar um conceito básico, embora pouco discutido, do comportamento humano. Em locais públicos humanos buscam se isolar de seus comuns. É por isso que quando você, com seu cabelo comprido e sua camiseta do Blind Guardian, entra com sua namoradinha num ônibus relativamente vazio, é difícil encontrar dois bancos, um ao lado do outro, vagos. Os passageiros não querem contato com os outros passageiros e procuram ficar sozinhos, assim se limitando à sua própria mediocridade para poder pensar sobre, seilá o que pessoas médias pensam, carros tunados, novela da band, car-system, enfim, em paz. E se há um banco público, um usuário certamente irá seguir a tendência de deixar um espaço vago entre ele e o próximo. É assim que o ser humano age, portanto, planejadores: façam sempre bancos em número ímpar! Já que um banco par, de quatro lugares, só tem dois lugares a principio, depois disso é questão de se acotovelar. Um banco de cinco lugares teria três lugares confortáveis antes de ficar desagradável para todos os envolvidos.

O suspeito como descrito para o retrato-falado.

Não sei se foi edital, licitação, decreto ou o quê, que instituiu para o município de São Paulo um projeto de pontos de ônibus tão bem pensado. Talvez tenha sido desenvolvido em tempos longínquos antes de algumas coisas que temos hoje em dia existirem, como por exemplo, chuva. Sempre que chove, o banco dos pontos de ônibus molha. Sempre, não importa a intensidade. Talvez esse fator antes era mitigado pelo fato de todo ponto de ônibus ter um backlight horrível, com propaganda horrível, que protegia as costas dos usuários e os bancos dos pontos, mas o ditador Al-Kash-Aab vetou a propaganda desenfreada nas ruas e, desde então, se uma leve garoa se aproxima, todos os bancos ficam imediatamente encharcados. Pelo menos ele tem um design arrojado que combina com 70% da arquitetura da cidade de São Paulo, se não pelos materiais e linhas, pelo estilo geral de extremo mal gosto estético.

PS: Um passarinho me contou que a próxima gestão municipal pretende trocar os atuais pontos de ônibus por palmeiras imperiais, mas só o tempo irá dizer.

COM O ADVENTO da internet, torrentz, legendas em PT-BR um dia depois do E07 S02 sair na gringa, TV com Pendrive e amigos nas midias sociais nos falando o que devemos assistir, perdemos a inocência de colar na videolocadora de havaianas e moletom numa sexta-feira chuvosa, sem saber que filme ver. São inúmeros os fatores que nos levaram a entrar nessa vala comum, mas os americanos inventaram um bom nome para um dos maiores responsáveis por isso. O famigerado “filter bubble”, que, a partir de suas escolhas anteriores, julga o que você deveria ou não ver. Limitando a sua escolha a coisas que você já conhece ou deveria conhecer.

Nada como um belo filme de Surf, manolo.

O que a locadora tem a nos ensinar? Bom, a locadora não obriga você a escolher uma coisa ou outra. Se você entra com os olhos atentos e o coração aberto em uma locadora, você vai para a estante que a sua predisposição atual o chama. Comédia, drama, cult, suspense, AÇÃO. Na locadora um filme é sim, julgado pela capa, e isso é sincero e bom.

Stan Molina outro dia foi à uma locadora sem saber o que queria ver, nisso avistou um belo de um filme de surf. Se ele ficasse no facebook, vendo as postagens dos seus amigos artistinhas, nunca que ele ia encontrar uma indicação desse belo filme de 2008. Livre como as ondas do mar, ele curtiu esse filme sem ajuda da internet.

SEMPRE TIVE um problema sério, talvez crônico, com hipérboles. Dizer com segurança “esse é o melhor cachorro quente do universo conhecido”, nunca foi algo que me veio naturalmente. Claro que com os anos fui aprendendo a dar uma exagerada aqui e ali, mas sempre tratei esse instrumento da retórica com desconfiança. E é por isso que admiro um açougue perto de casa. Coroando sua entrada existe uma faixa com os dizeres “ACEITAMOS CARTÃO DE CRÉDITO, QUALQUER VALOR”, que não tem nada a ver com o que eu estou falando aqui, o que interessa é a segunda linha da faixa que diz “AQUI VOCÊ FAZ UM BOM CHURRASCO”, não um ótimo churrasco, não o melhor churrasco das galáxias, apenas um bom churrasco. Achei digno.


Num raio de seis quadras desse sincero açougue você encontra: uma biboca com o cartaz “O MELHOR NHOQUE DE SÃO PAULO”, uma pastelaria que serve “O MELHOR PASTEL DE SÃO PAULO” e indo ao trabalho outro dia vi um furgão entregando na padaria “O MELHOR PUDIM DE SÃO PAULO”. Ou estou cercado de gênios da culinária ou existe algo errado com esse sistema de valoração. Eu prefiro ficar com UM BOM CHURRASCO do que com o melhor qualquer coisa. Eu posso confiar no simplesmente bom, talvez o bom seja melhor que o melhor.

Mas, para compensar, um amigo meu me contou de quando foi visitar Londres avistou um cartaz “The Best Kebab of London” e alguns metros de distância outro lugar, bem parecido com o primeiro, que tinha o cartaz “The Best Kebab in The World!”. Dessa segunda hipérbole aí eu gostei, essa segunda hipérbole aí eu achei maneira.