Arquivos para o mês de: dezembro, 2012

POSSIVELMENTE o único jogo de videogame que eu tive alguma habilidade foi o Street Fighter. Depois de crescer jogando Super Street Fighter 2 no meu mega-drive, eu adquiri para o meu Playstation o Street Fighter Zero 3. Devo ter jogado um número vergonhoso de horas aquele jogo sozinho, e com isso aprendi a controlar, prever, calcular e usar os golpes dos bonecos com certa habilidade. Ao jogar com os meus amigos eu costumava ganhar, fazia até aquelas palhaçadas que jovens machinhos inflados de ego faziam para humilhar seus iguais, como deixar seu oponente escolher seu personagem ou simplesmente mandar no Random, claro que se caísse com o Dhalsim eu não ganhava, mas não é do que estou tratando aqui.

Existe um fator imprevisível e caótico chamado Mulher Louca no Comandando do Controle, daqui pra frente tratado como MLCC. O que a namorada do seu amigo faz quando está numa festinha e escolhe a Chun-li pra bater no seu Ken? Ela aperta qualquer botão de forma aleatória e, fator importante, entusiasmadamente. Não existe como prever se ela vai ficar pulando no mesmo lugar, soltar um mortal kombat na sua fuça ou desferir uma saraivada de golpes doidos. O fato é que é muito provável ela vencer alguém com alguma experiência, pois as pessoas costumam pensar em certos padrões previsíveis dentro de um contexto específico, mas as mãos de uma MLCC são servas do c@os, e como ele agem de maneiras misteriosas.

Blanka Maluco

O Blanka odeia corrupção, falsidade e mulheres ganhando em jogos de luta.

Uma MLCC não tem o que perder, uma reputação a zelar, ela não leva aquele jogo a sério, por isso mesmo ela entra num transe maluco que provavelmente vai derrubar a sua tática, pois uma MLCC não tem nada a ver com tática, ela está além. E em 30 segundos você, machinho médio, não conseguiu manter o sangue frio e está perdendo para ela, seu orgulhinho todo ferido. Tadinho de você.

Como vencer de uma MLCC? Jogue naturalmente, tentar emular a tática dela não vai dar certo e irá contaminar a sua experiência de campeão de Tekken da casa da sua tia. Continue agindo normalmente e aceite o fato que você pode perder, uma hora a MLCC também perde e você volta a jogar contra outro jogador mediano para vocês testarem suas táticas repetitivas. Mas a MLCC, como o c@os, é uma radiação que pode gerar mutações interessantes na fauna assim aumentando sua diversidade, isso se não matar todas as espécies num raio de 300 Km.

O DIA A DIA de um trabalhador paulistano que não se rende à bunda-molice dos restaurantes por quilo, tem que enfrentar um cardápio enfadonho e repetitivo nos restaurante populares mais próximos de seus locais de labuta. Nessa série que se inicia hoje apresento os pratos do dia, de segunda a sexta, que são servidos nos pés-sujos da capital paulistana. Começando pela segunda-feira com o famoso virado à paulista.

Virado à Paulista

Com calorias suficientes para manter uma tripulação remando um navio de porte médio carregado de bauxita por uma semana, o Virado à Paulista abre a semana de maneira light. Ele consiste em, couve refogada, tutu de feijão (geralmente com linguiça), arroz branco, bisteca suína, linguiça (mais linguiça), banana empanada, torresmo e, para coroar, um belo de um ovo frito. Boa sorte para trabalhar depois desse bate estaca.

Nunca entendi o que é tipicamente paulistano do virado à paulista, já que a maior parte dos seus elementos constituintes parecem vir da culinária mineira, mas admiro a maneira imbecil de empilhar a maior quantidade possível de gordura num pobre disco de porcelana.

SEU HABITAT é nas grandes cidades, onde através de algum instrumento estatal ele serve para educar e conscientizar o ser humano médio de seus deveres cívicos. O Palhaço Moralista pode vir vestido de palhaço, mímico ou, mais comumente, uma linda mescla dos dois. Ele serve para educar a atravessar na faixa, jogar o lixo no lixo, não bater nos idosos, enfim, ele é o agente moralizador em um estado civil que a princípio não põe o dedo na educação de seus humaninhos, apenas na instrução.

Os idealizadores desse instrumento moralizante provavelmente pensaram “Qual a figura mais detestada que conhecemos? Como, com baixo orçamento e mão de obra barata, podemos humilhar, assustar e acossar moralmente os cidadãos, assim os transformando em  pessoas melhores?”.

Quando a culpa está presente o Palhaço Moralista está à espreita.

Quando a culpa está presente o Palhaço Moralista está à espreita.

Assim nasceu o palhaço moralista, o braço longo do imperativo categórico. Duas tradicionais maneiras de controlar a moral e os bons costumes no coração dos seres humanos são expressas nele, a culpa judaico-cristã e a humilhação pública, a segunda mais comum como termômetro social em sociedades extremo-orientais.

Quando você não entrega aquela maleta cheia de dólares para a polícia e preocupado olha para o lado, é o Palhaço Moralista que está fazendo “Não, não.” triste com a cabeça. Quando você engravidou sua namoradinha e decide na mesma hora tentar a sorte na cidade grande, sem avisar nem a sua mãe, é o Palhaço Moralista, triste, que pega a sua passagem quando você está entrando no ônibus na rodoviária de Ibirá. Quando você cola o chiclete embaixo da cadeira do cinema, é o Palhaço Moralista, triste, que cega seus olhos com a lanterninha. A sociedade só funciona aos trancos e barrancos porque todos temos um medo inconsciente do Palhaço Moralista metaforicamente nos impedir de atravessar fora da faixa.

RECENTEMENTE fiz uma viagem de ônibus e entre os símbolos que amo desse tipo de empreitada, como os fliperamas de rodoviária e a palavra cruzada coquetel desafio cuca, um se destaca. É o honroso espetinho de frango empanado, a partir daqui abreviado pela sigla efe. Desde minha mais antiga memória de viagens intermináveis de carro para lugares paradisíacos como Catanduva e Guaratinguetá, eu estava familiarizado com essa iguaria. Antes da ascensão do monopólio GRupo Antonio Augusto Liberato cobrar módicos R$ 8,88 por esta maravilha, era mais comum se deliciar com essa culinária de rodovia na ainda resistente rede Frango Assado, o monopólio anterior.

A Barra de Proteína Original.

A Barra de Proteína Original.

O efe é a verdadeira barra de proteína, é um bloco monolítico de alimento prático. Como um colega da teoria crítica ressaltou, ele parte do princípio milenar, elevado à esfera da arte pelos chineses, Frito Mata Tudo. Qualquer que seja a procedência do frango, ele, bem empanado e frito, manterá fora os parasitas e garantirá a consistência em seu preparo. A consistência de calcário. A carne estará uniformemente mais seca que as pedras do Atacama e tão palatável quanto. Uma bela dose de sódio dá sabor e sede ao aventureiro, que será obrigado a comprar um belo de um Guaraviton superfaturado para engolir, como uma pílula de saúde, o pedaço final do espeto. É a culinária de rodovia em seu ápice. Não é à toa que a tradição permanece e os frequentadores dessas lojas de sabores únicos (como o pé de moleque de um metro e meio de diâmetro) continuam consumindo esta iguaria vitoriosa.

PS: Outra lembrança que me é cara dessas viagens de rodovia é a parada ocasional que faziamos com o meu avô no Leite ao Pé da Vaca. Onde você chegava e observava um capiau tirar leite da vaca na sua frente, enquanto ela fazia suas necessidade, espantando sem muito entusiasmo as moscas com o rabo. Depois você podia pedir para jogarem groselha nele (no leite, não no capiau) sendo assim presenteado com um bigode cor-de-rosa.