Arquivos para o mês de: janeiro, 2013

PROVAVELMENTE você já se pegou dizendo/pensando a seguinte frase: “Meu! Justo hoje, só porque eu vim sem guarda-chuva, me cai esse toró meu!”. Vamos destrinchar esse raciocínio aí meu querido. Esse é o exemplo mais comum sobre como funciona o pensamento teleológico. Teleologia é a maneira de explicar as coisas através de seus fins últimos, por ex. a água foi feita para matar a minha sede, ou negativamente, a chuva só caiu agora porque é sexta-feira e eu estou saindo do trabalho para tomar um chopps (merecidíssimo!) com a galera da firma meu. É como constatar que os inúmeros anos de desenvolvimento do universo foram feitos para que a goiabeira existisse para que o Chico Bento possa roubar as goiabas do pomar do Nhô Lau (e talvez levar um tiro de sal no bumbum [o sal inclusive {fora funções auxiliares para levar a este fim} foi feito para servir de munição para o Nhô Lau]). Vários filósofos combateram a teleologia e suas reduções, consideradas injustas, utilitaristas, e anticientíficas.

A Goiaba e o Guarda-Chuva, os símbolos máximos da Teleologia.

A Goiaba e o Guarda-Chuva, os símbolos máximos da Teleologia.

Esse tipo de pensamento é um processo natural humano. É gostoso pensar que as coisas existem para nos servir, assim nos colocando no centro, e acima, da natureza. Esta posição nos dá o controle e o direito de usufruir tudo o que pode nos ser útil, ao mesmo tempo explicando tudo o que existe (a não ser, por exemplo, baratas). Enfim, é muito desconfortável pensar que foi o acaso, boiando à deriva num mar de c@os, que culminou nas coisas serem como são no atual estado do cosmos.

É muito mais agradável e morno pensar que tudo o que existe tem um propósito, a água pra beber, a comida pra comer, o ar pra respirar. Mas por incrível que pareça as coisas me parecem bem melhores se nascidas de uma tempestade caótica de acasos improváveis e absurdos. Às vezes ao dormir penso no grande c@os, e as coisas, como são, me soam mais mágicas do que uma mágica. Faz eu me sentir minúsculo, assustado e sem controle real de nada. Faz eu me sentir feliz.

TODA ÉPOCA tem uma comida da moda, um prato que está em voga e todo cidadão médio e de boa índole está autorizado a comer sem medo da reprovação de seus iguais. Essa iguaria, se vitoriosa, vence o peso dos anos e se mantém enquanto figura secundária nos cardápios da cidade e/ou país que conquistou. Como foi o caso do fim dos 90’ começo dos 00’, onde me lembro claramente da febre da Mussarela de Búfala (no começo era Búfalo mesmo, sem distinção de gênero) com Rúcula (sempre foi feminina) e Tomate Seco (macho), ou MbRTs.

frozenaki

O ápice da Comida Babaca contemporânea, o Frozenaki de M&Ms.

Gosto de chamar esses pratos de Comidas Babacas, não pela comida em si, mas pela popularização totalista deles. Eles são os Sneakers Femininos dos restaurantes, os Finger Boards do fast-food, as Calças Baggy das praças de alimentação, e da mesma forma que aparentemente do nada sua popularidade vira algo descomunal, somem com a mesma velocidade. Dentre as atuais comidas babacas, duas iguarias se destacam. O Temaki e o Frozen Yogurt. Ambos vem levemente apoiados pela recente moda de comer de maneira saudável. Embora ninguém comente como os litros de shoyu que você joga no seu conezão aumentam absurdamente seu consumo de sal por dia, ou como se você jogar gummy bear e M&Ms no seu frozen meio que desvirtua todo o propósito dele.

Aliás, essa coisa de jogar qualquer parada em cima do seu frozen me lembrou a moda típica dos anos 90’ dos buffets de sorvete, ou sorvete por quilo, ou self-service de sorvete, que você encontrava em qualquer esquina. Pensando bem, aquilo sim que era babaca.

NO ANO DE 2007 de nosso senhor, em um acidente imbecil de sk8, eu quebrei o meu fêmur. Além da lição do que é dor física de verdade (que eu sinceramente desejo que cada um de vocês aprenda), comecei a observar algumas coisas que costumavam passar batidas. Depois de cerca de seis meses de cama e depois de muletas, comecei a usar bengala e voltei a frequentar o disputadíssimo transporte público da cidade de São Paulo. Além de aprender que pessoas realmente ignoram quem está de bengala e não costumam ceder assentos preferenciais, notei outro detalhe desses assentos.

Velhos, Gordos, Aleijados e Prenhas
Não sei que diretriz de sinalização indica onde serão colocados os adesivos e cartazes nos ônibus, mas elas seguem, se não uma lógica, um padrão. Quem decide isso estou em dúvida se são filhos da puta, burros ou sinceramente mal intencionados. Observe. O adesivo indicando que tal ou tal assento é preferencial é colado no vidro da janela, ao lado da cabeça do passageiro, de forma que ele não pode enxergar o que está acontecendo lá fora a não ser como se tivesse 16 graus de hipermetropia. Ver o nome das placas de rua? Não seu coxo, não pode não. É curioso como nessa época é muito aparente a preocupação em não ofender os aleijados, os gordos, os velhos, as grávidas, etc. Todos tem uma designação mais adequada nessa nova nomenclatura, nesses eufemismos brancos. Mas deixar eles olharem pra fora da janela do ônibus? Não, não. Mas pode ficar apreciando a beleza dos maneirismos do cobrador o quanto quiser, fera.

TRADICIONALMENTE o prato de terça-feira era a dobradinha, provavelmente provinda de nossos ancestrais portugueses, cuja Dobradinha à Moda do Porto continua sendo um prato reconhecido na terrinha inteira. Como o brasileiro não gosta de tradição (já que a primeira coisa que faz ao ganhar $ é por tudo a baixo e fazer um novo pior e mais feio em cima) e é meio fresco (pra quem não sabe estamos falando sobre comer estômago de animais[boi]) com comida, esse prato mudou. Já que restaurantes são estabelecimentos comerciais e dependem do freguês pra pagar as contas.

rolet scan baixaO substituto atual é concorrido entre alguns pratos, como o picadinho e a dobradinha que persiste em alguns restaurantes, mas o mais comum de encontrar num belo restaurante popular paulistano (RPP) é o Bife à Rolê. Ele consiste em uma carne de segunda categoria enrolada em volta de alguns legumes (cenoura, aipo, vagem, varia bastante) e bacon (que serve para amaciar essa carne de segunda). Acompanha arroz, feijão e purê de batata. Um detalhe gostoso (que esqueci de colocar na ilustração, mas quem é você para me julgar?) são os palitos de dente que seguram a coisa toda em formato de charutão, grandes apoiadores dos melhores cirurgiões dentistas de bairros tanto nobres quanto populares de toda a cidade.