Arquivos para o mês de: fevereiro, 2013

EM SEUS ANOS de formação, o ser humano começa a captar nuances e sutilezas exteriores ao próprio umbigo, aprende que existe um mundo externo a ele e pessoas constituídas mais ou menos da mesma maneira que ele próprio, mas com suas respectivas particularidades. Enfim, ele aprende que existe um fora-de-si, algo que não opera da mesma maneira que ele e contraditoriamente, ele coloca a maior dose possível de esperanças e projeções nesse objeto. Esse objeto é uma pessoa que geralmente é do sexo oposto, o que aumenta o número e o grau das inseguranças que este não-eu pode causar no pobre coração virgem. Em 97,4% das vezes, essa relação não irá se concretizar ou simplesmente não vai dar certo, e é bom que não dê, pois é um passo importante no desenvolvimento dessa pessoa que nasce, agora para um mundo expandido e consideravelmente mais assustador. Esse, grosso modo, é o processo do primeiro amor ou primeira paixão ou amor adolescente.

Gosto de pensar que todo papel de carta é um tratado de metafísica em potencial.

Gosto de pensar que todo papel de carta é um tratado de metafísica em potencial.

Obviamente o jovem coração não compreende desta forma o que acaba de ocorrer, para ele, ele SIMPLESMENTE MORREU ou NÃO DESEJA MAIS NADA NA VIDA e SEU GRITO ACORDARIA NÃO SÓ A SUA CASA MAS A VIZINHANÇA INTEIRA. Ao passar por esse trauma você sente algo num grau nunca antes imaginado, e, pela incapacidade da articulação de algo tão abstrato e avassalador, você tem a plena certeza que nunca, jamais na história da humanidade ou mundos possíveis, ninguém sentiu algo parecido, e ninguém (muito menos os seus pais) pode entender o que você sente agora. O que é absolutamente correto, pois você acaba de acordar para o cosmos, para o eterno, para as coisas maiores que si, ocorreu uma cisão entre o seu Eu e o mundo, e essa fenda nunca mais vai fechar. Acredito que seus pais, se amorosos e preocupados, tentaram explicar essa coisa, mas como você sabe, é impossível a articulação desse sentimento. Naquele momento o seu mundo de fato acabou e, aos poucos, irá se configurar em outro, mais complexo, menos romântico. E na próxima vez vai doer menos, eu prometo.

A IDEIA de plenitude já foi abordada de diferentes modos por qualquer sociedade humana que parou de jogar pedra na cabeça de seus iguais por dois segundos, começou a olhar para o céu e a pensar no porquê das coisas. A noção de um estado de consciência de perpétua alegria sempre fascinou o ser humano. Uma abordagem que é comum a algumas escolas gregas de pensamento é a da Ataraxia. Vindo do léxico militarista o termo Ataraxis rigorosamente quer dizer “ausência de ameaças” mas em seu uso usual (boa essa frase, hein?) define um estado de ausência de paixões, onde livre dos sentimentos você se torna pleno para se dedicar ao pensamento puro, longe das amarras carnais que nos tornam escravos de nossas alegrias, impulsos e sofrimentos. No budismo um análogo quase perfeito é o de alcançar o Nirvana. Bom, isso não funciona, mas temos em nossas vidas momentos fugazes de alegria plena, que nos ajudam a seguir existindo neste universo ingrato, infeliz e injusto.

MEGADRIVE

O instrumento da minha plenitude.

Eu tinha por volta de 12 anos e era dezembro. Depois de ter passado de ano sem ficar de recuperação, não existia nenhum compromisso ou aflição naquele corpo magro e feliz. Eu fui ao mercado e comprei: uma Coca-Cola de dois litros, um saco de bala chiclé Big Bol. Me dirigi à locadora que tinha embaixo do meu prédio e aluguei alguns jogos para o meu Mega Drive. Voltei para o apartamento e eu era como um Deus, eu era a entidade que observa cada fenômeno possível e se delicia em cada um deles, ao mesmo tempo ator e observador imparcial dos segredos últimos do universo. Não existia tempo ou espaço, apenas meu copo de coca, meu saco de balas (chiclete) e um jogo horrível de videogame que eu não conseguia jogar direito, mas eu não estava nem aí, pois eu tinha chegado ao conhecimento supremo da alegria.

Eu estava pleno.

MACARRÃO COM SALSICHA, Miojo e Ovo Frito, Miojo Apenas, Macarrão com Atum, Pão Francê com Leite Condensado, Leite com Groselha, Lasanha de Pão de Forma, Qualquer Coisa com Cremilly, Pudim de Pão, Arroz e Sardinha, Qualquer Coisa com Milho em Lata, Macarrão Massa de Ovos Renata Com Atum e Milho em Lata, Maionese de Seleta de Legumes, Qualquer Coisa com Seleta de Legumes, Catchup + Maionese = Molho Rosê, Qualquer Receita do Site Tudo Gostoso, Pão com Ovo, Creme de Leite + Maizena + Sal = Molho Branco, Arroz e Feijão com Macarrão, Pavê com Biscoito Champagne, Gelatina com Creme de Leite, Receitas que Contém Nescau.

cesta_basica-baixa

Você só precisa de uma cesta básica e uma boa dose de criatividade!

Comida de pobre não é culinária popular. Enquanto a culinária popular é observada pelo viés da gastronomia e da estética, a comida de pobre é pesquisada com as grossas luvas da antropologia urbana. É um engenho sem tradição que não deve nada a ninguém, que combina livremente os parcos ingredientes da comida processada. É seguir à risca uma receita que contém uma quantidade não recomendada pela OMS de creme de leite de caixinha. É fazer uma receita que veio impressa no creme de leite de caixinha. É uma culinária que prima pela ousadia na mistura de ingredientes comuns de sabores fortes, mas que olha para comidas exóticas com uma desconfiança perversa, e pretende continuar eternamente no conforto ameno do paladar infantil.

PS: Agradeço a minha amiga Thaise Oliveira, que ao descrever um prato que fez me abriu os olhos para este conceito importante para a cultura brasileira e suas problematizações instrínsecas.