Arquivos para o mês de: março, 2013

ANO PASSADO, perto do meu aniversário, a minha tia morreu. Não digo faleceu pois me soa pouco sério, diminui o fato, como se fosse algo que vai embora quando você abana irritadamente as mãos como quem espanta uma mosca. Falecer não tem o peso irremediável que a palavra morte traz consigo, e esse peso é importante. Até hoje me pego pensando nela e nas escolhas que fez, em como decidiu ser e como ela era. Uma pessoa difícil, cheia de razões e que dizia com todas as letras que se colocassem o mundo nas mãos dela, ela resolvia tudo. Ela decidiu ser daquele jeito e seguiu em frente, me parece mais um projeto estético do que de vida, mas algumas pessoas tomam suas escolhas e ações mais a sério do que a vida em si. Elas são maiores que a vida, e às vezes a vida acaba com elas.

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A cestinha que a doida da minha tia deixava pendurada na porta da cozinha, portando sacolas de supermercado dobradas até formar um triângulo.

Estava conversando com o Stan próximo disso, e ele me disse em seus breves surtos de lucidez “as pessoas tem a obrigação de ser da hora, se o cara for incapaz pelo menos tem que ter a obrigação de continuar tentando” eu concordei. Cada um tem o dever de ser maneiro, ou morrer tentando. A minha tia não era maneira porque era uma pessoa amável (embora fosse) ou conciliadora ou passiva (o que não era), ela era maneira porque era autenticamente ela mesma. E talvez isso tenha acabado a matando. É grande o peso de ser autêntico, de ter essa força na cara que você vira para o mundo, de engolir cuspe para seguir sendo você ao máximo apesar das forças contrárias. É uma força muito potente, mas que desgasta, que vai queimando. Me pego pensando nos pequenos propósitos que somos obrigados a nos dar para seguir existindo, pequenas metas, pequenos sonhos grandiosos, pequenas concessões, pequenas mesquinharias. Desde cedo me impus a obrigação de ser autêntico, talvez uma besteira que com os anos acaba cessando, mas é a minha besteira, e através dessa vontade, dessa potência em seguir existindo do meu jeito, eu sei que tento ser um cara maneiro.

FALA-SE MUITO sobre uma suposta nobreza inerente aos animais. Diz-se que uma águia é altiva, um cavalo garboso, fala-se muito dos inteligentíssimos golfinhos, etc. Esta projeção de qualidades humanas em animais é comum, recorrente e sistemática, quase que uma pandemia, uma derivação da nossa incapacidade de observar a natureza a não ser pelo metro humano. Partindo deste princípio, vamos analisar dois animais, símbolos internos à grande noção de brasilidade. O macaco e o papagaio.

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Essa duplinha do barulho vai bater a sua carteira e ficar rindo da sua cara, durante horas e horas e horas e horas.

Da família dos psitacídeos, reza a lenda que os papagaios são animais extremamente inteligentes e comunicativos. Não sei desde quando ficar imitando som de telefone e repetindo os palavrões que o seu irmão mais velho ensina significa que alguém é inteligente ou comunicativo. O mesmo pode ser dito das araras, que não passam de primos maiores, mais coloridos e mais violentos que os pequenos papagaios. A mera capacidade de ficar repetindo a mesma palavra durante horas a fio não demonstra a inteligência inata desse animal nobre e desenvolvido, só comprova uma fixação patológica e, uma necessidade vil de encher o saco do próximo.

Macacos são emblematicamente desprovidos de moral e caridade cristã. Eles são pequenos anarquistas sem o sonho de um mundo melhor. Ao observar o macaco, bonitinho, engraçadinho, agitado, é natural sentirmos algum tipo de empatia para com esse animal tão  parecido conosco. Até ele jogar merda em alguma excursão de colégio ou começar a berrar assustadoramente enquanto fica pulando no mesmo lugar. Os macacos são os trombadinhas da natureza mas, ao contrário de sua contrapartida humana, eles causam apenas por causar. Ele é o único animal, além do ser humano (o pior animal de todos), capaz de se masturbar animadamente enquanto  olha fixamente nos seus olhos.

Se formos pensar que estes animais são nobres no sentido de serem capazes de tomar o que querem à força, estuprar as mulheres de seus inimigos, jogar restos de comida no chão e mijar quando quiserem onde bem entenderem, bem, aí eles são bem nobres mesmo. Tentar adaptar esse animais a um ideal romântico de nobre enquanto educado, fiel, dono de belos modos e um afiadíssimo senso de justiça, bom, aí não encaixa muito bem não.

SE VOCÊ já frequentou uma quermesse certamente já viu essa figura, mas se estava cometendo pequenas infrações ou aloprando de maneira geral, provavelmente foi vítima de sua ira. De faixa etária difícil de identificar, algo entre 40 e 120 anos, ela já perdeu a fé nas dietas milagrosas e escolhe roupas não por sua estética, mas por serem vastas, confortáveis e com padrões florais. A Fiscal de Fila não se curva frente à injustiça. Ela vai à luta e toma a besta pelos chifres. Algum espertinho está se aproveitando das pessoas distraídas na fila para economizar uns bons 20 minutos na barraca da pesca? Um safado acaba de dar um ágil passo ao lado para roubar o lugar daquele senhor de meia idade de pochete, bermuda e meias esgarçadas? É a fiscal de fila que toma as rédeas, acusa a injustiça, procura os responsáveis e explica tin tin por tin tin o que está de errado na organização da Feira do Bordado de Ibitinga.

Vestida para defender a justiça.

Paramentada com as roupas e armas adequadas para defender a justiça.

Existem duas faixas etárias no tempo hábil do ser humano que ele não está ligando nada para o que o resto do mundo acha dele, a rasa infância e depois que ele começa a visivelmente envelhecer. Martelada na bigorna do cotidiano, a Fiscal de Fila está farta desses safados se aproveitando de tudo. Ela briga na feira, ela xinga o vizinho, ela reclama seus direitos, ela se delicia ao encontrar um belo de um fiscal com orgulho do seu trabalho. Eles se complementam, achando e punindo as pequenas imperfeições do mundo. Você quer fazer do mundo um lugar melhor? Você quer arregaçar as mangas e trabalhar por isso? A Fiscal de Fila usa roupas que já vem sem mangas e faz isso de domingo a domingo.

NO ANO de nosso senhor de 1994, baseado no romance de Michael Crichton, Steven Spielberg trouxe vida ao sonho de inúmeros meninos pré-púberes. Para a minha geração, Jurassic Park ajudou a fundamentar e sedimentar a imagem de que os dinossauros foram os animais mais maneiros a habitar a face da terra. Apesar da figura assustadoramente imponente do Tiranossauro Rex, as verdadeiras estrelas do filme, e do nosso imaginário eternamente infantil, são os Velociraptors. Dotados de afiadas garras nas patas traseiras e uma impressionante inteligência, comprovada no filme por sua habilidade de abrir portas (nada muito útil para entender Filosofia Analítica, mas bem razoável comparada a um labrador). Eles eram ágeis, ferozes e nobres (do tipo que saqueia o seu vilarejo e taca fogo em tudo) como nada que conhecíamos antes. Porém, depois de anos de pesquisas científicas o que descobrimos? Que eles tinham penas e eram consideralvelmente menores do que no filme, mais ou menos da altura de um peru.

raptor x ciencia - alta

Não tenho nada objetivamente contra as pesquisas que corroboram as teorias evolutivas que mostram que os dinossauros eram precursores das aves. Elas são bem razoáveis e as acompanho com um olhar leigo, carinhoso e interessado. Mas cada vez mais o Velociraptor não se configura como uma máquina suave de escamas, garras e morte. Hoje em dia ele parece mais uma espécie de avestruz babaca. O antigo raptor era um ser alienígena, um animal que não se parece com nada que habita a terra hoje em dia, e grande parte dessa aura de estranhamento e admiração que o animal trazia consigo simplesmente cessa de existir quando colocado nesse contexto. É muito triste ser confrontado com essa noção de que o animal mais animal que existiu na face da terra, pode ser comparado com uma galinha. Afinal de contas ao invés de caçar herbívoros gigantes com habilidade felina, ele provavelmente ficava ciscando carniça sob as sombras da megaflora. É como reconhecer o seu amor platônico da sétima série, anos depois, toda embarangada e fazendo compras no supermercado Dia%.

raptor esboço - LIMPO