Arquivos para o mês de: abril, 2013

A BOCA PEQUENA quando alguém fala de evolução, ou melhor, em evoluir, o que vem à cabeça é de algo que vai de um estágio mais básico e inferior para algo mais complexo e superior. Uma transição clara de algo pior para algo melhor, quase que um progresso óbvio de como as coisas melhoram no decorrer do tempo. Bom, existem alguns problemas de base nesse processo que costuma contaminar os raciocínios posteriores, que vem grudados como rêmoras no pensamento dos nossos amigos cientificistas.

Podemos reduzir os dois modelos mais famosos (no ensino médio [de pessoas da minha faixa etária pelo menos]) de evolução das espécies a duas visões distintas do finalismo. As espécies lamarckistas são finalistas a priori e as darwinistas são finalistas a posteriori, ou seja, uma espécie darwinista se fode por 231.456 gerações até um desgraçado desenvolver uma mutação que faz sua espécie de peixinho ósseo nadar mais rápido para comer outra espécie mais infeliz de peixinho ósseo. O lamarckista apenas vai seguindo em direção à sua devida perfeição, girafas ficam com o pescoço cada vez mais longo para alcançar as folhas das árvores, etc. Para Lamarck é o ambiente que adapta a espécie e não uma mutação maluca que, por acaso, fez aquela espécie se adaptar melhor ao ambiente.

A evolução Pokemón é um ótimo exemplo de como funciona a evolução progressista. Vemos na imagem as três fases consecutivas de um espécime: O Goty, o Gotozo e o MEGA-LORD DO UNIVERSO.

A evolução Pokemón é um ótimo exemplo de como funciona a evolução progressista. Vemos na imagem as três fases consecutivas de um espécime: O Goty, o Gotozo e o MEGA-LORD DO UNIVERSO.

Bom, não acho que seria grande problema se isso estivesse estrito à evolução das espécies, o problema é querer aplicar isso a tudo. Existe um ranço progressista em cada um de nós, uma voz que prega a melhoria constante das coisas e um juízo neutro, quase que absoluto, que define como essa melhora opera. Geralmente crescemos com predisposições teleológicas, porque são explicações mais reconfortantes de mundo. Mas na dicotomia Adaptação e Caos X Progresso e Ordem eu fico com a primeira dupla, não só porque soam mais divertidos, mas porque nos ajudam a entender melhor o cosmos sem tentar encaixá-lo em uma regra absoluta e artificial.

GOSTO DE PENSAR na experiência de vida comum enquanto uma grande vontade cósmica de martelar sabedoria em nossas cabeças impenetráveis e, às vezes, um prego entra. Uma das virtudes mais elevadas, na minha humilde opinião, capazes do ser humano atingir é a humildade.  O comum quando consideramos o embate entre humildade e pretensão é achar que a segunda se configura apenas enquanto uma auto-afirmação no sentido de se achar o fodão. Mas como posto há pouco, talvez essa coisa não se configure tão facilmente assim. Existe uma forma mais vil, pois oculta, de pretensão.

Busão Trouxa

Estava eu atravessando uma famosa avenida no coração de São Paulo. O semáforo de pedestres tinha acabado de fechar quando avisto ao longe, do outro lado da avenida, o meu ônibus. Pensei “não consigo pega-lo, está meio longe, não dá tempo de chegar no ponto”. Falha de pretensão do segundo grau, o oculto. Quem sou eu para dizer que não ia conseguir? Eu tenho o conhecimento total para saber que tudo ia dar errado? Enfim, como de fato consegui chegar no ponto antes do ônibus, me senti vitorioso. Entrei no busão vestido do orgulho dos leões pensando “Hehehehehe! Acabo sair de outro ônibus, vou chegar em casa rápido e ainda tenho a integração do bilhete único. Hoje, Pedro Moreira Graça, você venceu o destino. Você é imbatível !!!”. Fui passar o bilhete e o confundi com outro bilhete que eu tinha no bolso, me dei conta ao ver os trágicos R$ 3,00 piscando na tela da catraca.

Através do mesmo objeto, de início o ônibus perdido e depois o ônibus dominado, tive uma lição de humildade que cessou toda a pretensão que me possuía.  Me senti nu, eu estava confuso, abatido, sozinho. Todo o prazer de conseguir pegar o ônibus que ia me deixar em casa deixou o meu corpo, como quem despe uma luva. O eco da humildade que me faltou, nas duas posições, permaneceu na cabeça. Eu era um nada, apenas um receptáculo para a pretensão das duas formas, ignorante do funcionamento total do mundo.