Arquivos para o mês de: agosto, 2013

VOCÊ PODE ser o que você quiser. Costumam falar isso quando você é criança, e é verdade. São algumas verdades, na verdade, em dois sentidos distintos. O primeiro vem da ideia, amplamente defendida e bela, de que as crianças são entidades alheias ao pragmatismo cruel do mundo. Seus sonhos são protegidos na crença de que essa fase da vida é relativamente sagrada e suas ideias loucas e incongruentes devem ser protegidas e respeitadas, até a linha temporal abstrata da maturidade martelar suas próprias verdades nas cabecinhas incautas dos lúdicos sonhadores. A segunda é um pouco mais chata e vai de encontro ao pragmatismo defendido das crianças, que é a da noção de que em qualquer sociedade civil relativamente livre, você pode desempenhar a função que almejar (contanto que seja uma função). Vulgarmente, você precisa de um emprego, de um ganha pão, mas pode ser o emprego dos seus sonhos. Soa meio abstrato? É porque é mesmo.

menino e enxada

Crianças tem asas, adultos ferramentas.

Grande parte das frustrações do homem moderno (se não todas) habitante de uma sociedade mais ou menos livre, vem desta abstrata noção que você deveria fazer o que o faz bem, grosso modo seguir suas aptidões e encontrar um lugar dentro deste caldeirão cultural maluco que é a sociedade na qual você nasceu e do qual você  não tem muita possibilidade de sair. Você tem que trabalhar com o que você gosta ao invés de gostar do seu trabalho, embora nos vendam a ideia de que o segundo seguirá da realização do primeiro. O primeiro obviamente parece muito gostoso e ideal e o segundo (se não derivado do primeiro) horrivelmente castrador e triste, embora mais realista. Você pode ser o que você quiser, realmente pode, e isto é extremamente limitador geralmente, pois precisa de empenho e foco e meta e várias coisas que não nos ensinaram nos anos pré púberes onde essa ideia era defendida.

É muito mais fácil ter gana e foco e ambição quando a sua atividade é mais clara dentro do jogo que você joga, se você quer ser o contador mais fodido da sua paroquia de contadores medianos provavelmente tem mais chance de conseguir isso do que, por exemplo, querer resolver os problemas da sociedade moderna se você acha que a música tonal é o inimigo a ser derrotado (pois acha que ela cria preconceitos além dos perceptivomusicais na criação do ser humano enquanto ser holístico indissociável de um universo existente apenas através da noção de existência enquanto intersubjetividade ativa de todos [Nossa, filosofei agora hein? Risos.]).

Você pode ser o que você quiser sim, mas é provável que você seja o tipo de gente que vai entrar em crises pontuais e cíclicas do que é esse querer-ser. Provavelmente na adolescência, na jovem adultice, na meia idade, e depois você cansou disso tudo e apenas vê a vida passar sem resolver muito as suas questões. E é um caminho válido, o da sábia resignação, mas só é sábio com alguma mínima paz de espírito e capacidade de respeito ao próximo, mesmo que esse respeito se configure em um plácido silêncio e um leve dar de ombros para o que você considera errado, se este errado não for daninho a alguma existência fora da sua.

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VOCÊ, caro leitor, não é especial. Ninguém é especial, é um dos conceitos humanistas que calharam no estado moderno, através de mais uma invenção grega, a isonomia. Em sua raiz a palavra destrinchada vira ἴσος (isos [mesmo, igual]) νόμος (nomos [regra, lei]), ou seja, iguais leis. Não irei fazer a banal distinção entre direitos e deveres pois ela já foi mais usada do que (eu colocaria aqui o termo “sua mãe” mas eu o respeito profundamente, caro leitor [respeito a sua mãe também]) alguma coisa que já foi realmente usada de mais. Prefiro chamar atenção para um termo muito utilizado hoje em dia – privilegio, que vem do latim (pasmem) privilegius que quer dizer ao pé da letra Lei Privada.

Todos nós alguma hora já pensamos que algo deveria ser diferente conosco, seja com coisas da natureza quanto com regras humanas, que né, aquela hora lá, aquela regrinha podia ser mais líquida né? Afinal não vivemos em uma ditadura. Bom, meu querido, a própria ideia de não vivermos em uma ditadura reforça essa coisa da isonomia, não existe um grupo ou indivíduo com mais direitos do que outro. Bom, mas comigo podia ser diferente né? Eu sou um cara tão legal, dá um desconto. Por princípio, sinto muito, não. Podemos observar em inúmeros casos como o ethos brasileiro geralmente tem dificuldade em entender este conceito. É possível encaixar este pedido de relaxada do sistema em duas esferas, na teleológica quando barganhamos (sem muito efeito) diretamente com a natureza e na ético-moral quando pedimos uma colher de chá pro seu guarda que está na sua frente com o caderninho de multa mesmo.

Quando o martelo acaba seu trabalho, amigão, todos os pregos estão mais ou menos no mesmo nível.

Quando o martelo acaba seu trabalho, amigão, todos os pregos estão mais ou menos no mesmo nível.

O antropólogo Roberto da Matta identifica na confusão entre esfera familiar e esfera pública (esse jogo moleque mulato faceiro do brasileiro [bem brasil mesmo]) uma possível origem da falta de noção de isonomia entre o povo da feijoada. Se é eu não sei, mas não acho estranho identificar essa deficiência no brasileiro. Se você acha que alguma hora quando você Chegar Lá o mundo irá tratar você diferente, bem, pode até ser que o mundo trate você diferente, seu paquitão, mas não deveria, por princípio. É meio reconfortante a abstrata noção de que algum dia você vai Chegar Lá, e por não me refiro apenas a realizações materiais, espirituais e intelectuais, mas um lugar próximo à ataraxia. Um nirvana palpável onde suas frustrações irão simplesmente evaporar no horizonte do bem estar perene. É realmente  reconfortante pensar assim,  realmente reconfortante e bem infantiloide.