Arquivos para o mês de: setembro, 2013

EM ANTROPOLOGIA CULTURAL existe um jeito, talvez meio antiquado, de separar dois tipos de cultura por seus instrumentos de manutenção da obediência civíl. A Sociedade da Culpa e a Sociedade da Vergonha. Tradição não é um dos valores humanos mais, ahm, valorizados ultimamente, embora eu não saiba (mais por preguiça e falta de conhecimento mesmo) enumerar os motivos todos que culminaram no abandono desse velho valor. Basta dizer que é um dado presente para quem quiser se debruçar, mesmo que apenas um pouco, sobre o assunto e que com isso o velho modo de inculcar regras morais gerais na galera também acabou perdendo com esse movimento. Nas redes sociais por exemplo, existem moralidades conflitantes se debatendo continuamente (no sentido de um peixe que se debate no chão do barco mais do que uma discussão racional), mas não aparenta se desenvolver um conjunto de regras morais gerais. O que acontece é que hoje em dia cada indivíduo tem seu conjunto de valores morais mais ou menos pessoais, não existe uma regra moral vigente clara, e este debater não costuma gerar discussões positivas no sentido de criar uma nova regra moral geral.

O Macaquinho da Culpa e o Toelho da Vergonha.

O Macaquinho da Culpa e o Toelho da Vergonha.

A internet, com tudo o que ela trouxe de maluco, parece se configurar sem este suposto conjunto de regras morais, mas existe nela um espírito de Senso Comum que começa a mostrar suas asinhas. Parte deste espírito abstrato se configura em um método que pela maneira própria que a internet funciona é capaz de vigiar, julgar e punir no mesmo movimento, com uma velocidade um pouco assustadora. Se é possível dizer que a internet é uma sociedade, ela está se mostrando uma sociedade da vergonha ao invés de uma sociedade da culpa, onde o medo da repercussão de seus atos não é fundado em uma consciência interior, mas no receio de ser julgado e humilhado publicamente por seus iguais. Nessa configuração os atos morais não se prescrevem de acordo com regras fundantes internas, mas por uma noção de constante observação e punição (do e pelo próximo) sempre presente. Não interessa o que você sente em seu íntimo, o erro está em colocar algo moralmente execrável em público e, do mesmo modo que na internet as pessoas costumam não ter muita noção de até onde suas palavras podem chegar, elas no ato de julgar o próximo, também não medem a forma e a força de seus ataques.

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ESCATOLOGIA é uma palavra de duplo sentido, não no sentido duplo de piadas com pepinos e nabos e cenouras e bananas e beringelas e abobrinhas etc. A palavra escatologia, além do sentido que faz você habilitar a busca segura no seu navegador web de preferência, tem uma função nomeadora bem distinta, de designar o fim. A palavra em sua raiz quer dizer, o estudo do fim. Não o fim num sentido de finalidade, mas mais como as três letras, em tipografia bem selecionada, que se avolumam ao centro da tela antes do letreiro do cinema subir. O estudo do fim, do fim dos tempos, do fim do mundo, do fim de tudo enfim. Algumas das cosmologias (das ditas) mitológicas dignas de nota que compraram e compram esta ideia da escatologia são, por ex o ragnarok dos odinistas e o juízo final dos cristãos. Outra mitologia que compra esta ideia, embora de forma um tanto distinta, é o socialismo. Em seu simbolismo e promessa de salvação, o socialismo é uma escatologia terrena em vida, de resolução histórica que visa a justiça material da humanidade, em lugar de um espetáculo apoteótico e pirotécnico da resolução moral e espiritual como o que prega o velho testamento.

A foice do camarada junta ao clarim da passada de régua.

Nas escatologias felizes esta ideia de solução de tudo é o que perpassa. A noção suprema de um passar de régua cosmológico impera, um acerto de contas total e irrestrito. Em nossas vidas criamos pequenas metas, micro-escatologias, e as imbuímos com nossas questões e problemas insolúveis. Criamos míopes sentidos de vida pelos quais nos projetar, curtos quase-palpáveis objetos de desejo, muitas vezes vislumbrando um não-querer-alcançar-los, pela segurança de solução que eles prometem que, no íntimo, sabemos impossíveis. Uns mil reais a mais, uns tantos quilos a menos, nunca estamos onde queremos estar, e isso nos adoece ao mesmo tempo que alimenta o nosso devir.A foice da justiça material e o clarim anunciando o juízo final, são maiores do que nós. A representação de desejos claros e certos, de coisas dignas pelas quais existir, um fim histórico para quem nunca foi história. A humanidade empurrará sempre à sua frente ou arrastará sempre às suas costas uma fome parecida. É necessária uma escatologia limpa para dar norte à força gasta e, mesmo após o fim do indivíduo, mesmo às costas do abismo, é necessário um sentido, algo que motive a queda. Mesmo que a queda aconteça sem ninguém para escutar. Proponho a quebra deste ciclo.