INFRADETERMINAÇÃO no léxico da epistemologia das ciências duras (naturais) envolve a noção de um olhar certeiro, um buscar algo no que se vê. Muito do que acho belo no relativismo cognitivo vem da noção deste conceito e análise cuidadosa desse processo. Infradeterminar é ver o que tem que encaixar e, do observado, saber descartar o que serve e o que não serve. Isso nas ciências duras é absolutamente necessário, quanto mais as observações vão ficando cada vez mais abstratas mais você precisa observá-las de acordo com um tipo específico de lente que lhe permita ver algo. Importante sempre lembrar que o conjunto de crenças objetivas que permitem interpretar adequadamente o observável não é algo que nasce com o ser humano pelo simples fato dele ser um Ser pensante, é uma construção intelectual de crença que se deu aos poucos, é uma redução teórica feita para uma suposta construção de conhecimento, quando tomada no âmbito das ciências duras.

berinjela

De acordo com suas predisposições teóricas, ao observar os mesmos fenômenos, algumas pessoas enxergam o padrão dos losangos, outras o dos quadrados, outras uma berinjela.

Um dos problemas do uso da infradeterminação é o problema da indeterminação dos dados à teoria, vejamos: 1. Um dado pode ser interpretado de múltiplas formas por múltiplas hipóteses diferentes; portanto 2. Como uma teoria pode ser interpretada através de dados? Bom, teorias e conjuntos de teorias são construtos complexos, interdependentes, mutáveis, grosso modo não temos todas as ferramentas e base teorica para passar por cima da crença na teoria. No final das contas, é um chute, como todo bom cientista deveria saber. O que nos leva a outro chute, uma extrapolação metodológica, segue.

Um dado observado pela lente das ciências humanas não está livre de infradeterminação, além do mais ele pode se confundir com outros processos epistemológicos desconhecidos do observador, como por exemplo a temível teleologia. Quando um pensador incauto interpreta um dado (sendo das ciências duras ou das flexíveis) ele não costuma se dar conta de todo o construto de crenças e processos metodológicos que levaram ele a utilizar das ferramentas e exemplos que lhe são tão caros, mas deveria ter a obrigação moral de ter alguma noção do tamanho da encrenca. O dado não foi feito para explicar a teoria que você usa, nesse ponto concordo com o Velho Sir Karl Popper, em sua distinção entre ciência e pseudo-ciência (especialmente em sua atenção ao falibilismo). Vale notar que quando o pensador incauto pratica a infradeterminação rasteira (que não se enxerga enquanto infradeterminação) quem perde é um dos dos processos metodológicos mais queridinhos das ciências humanas, a dialética.

Um dos problemas principais da infradeterminação rasteira é a simples inversão causal, ao invés de os dados servirem para testar a teoria enquanto ela tenta explicar um fenômeno, ele é usado para corroborar uma teoria estanque, encastelada, capaz de explicar tudo dentro de sua rede imutável e onipotente, nesse processo destruindo o debate entre teorias concorrentes que não vira mais um caminho comum para a construção de um conhecimento possível, mas mais se assemelha a um par de tilápias se debatendo no fundo de um bote.