AS ARTES CHAMADAS marciais perderam, em suas mais recentes encarnações, o que havia do que comumente se denomina Cultura. Existem valores compartilhados que são amplamente reconhecidos entre os fãs de MMA que não necessariamente são fundantes no que concerne as artes marciais matriciais que ajudaram a formar as técnicas utilizadas neste grande esporte de pay per view.

Fui durante vários anos um praticante do Karate do Goju Ryu, e vale traduzir algo disso para a rica compreensão do que se identifica enquanto uma arte marcial. Literalmente “karate do goju ryu” quer dizer “o caminho das mãos vazias, leve pesado”. O karate não é uma técnica, é uma tradição. Praticar o goju ryu não é apenas treinar golpes e praticar uma ginástica específica, existe um conjunto de valores, e uma identidade de compreensão de sentido de mundo, intrínsecos à pratica. Se aprende a dar uma mãozada na têmpora do oponente e um soco na boca do estômago e um soco certeiro no gogó, claro, se aprende também a usar várias armas brancas (incluindo ¾ das dos que os tartarugas ninjas usam), mas também se aprende a entender o conceito do leve e pesado e aprender que não é a mesma coisa que se aplica a qualquer situação. Também se aprende a noção de hierarquia.

caminho

A sociedade pragmatista contemporânea necessita, em seus grandes espetáculos de massa, valores que possam ser compartilhados pelo maior número possível de clientes, daí o sucesso do MMA. Imagino o tamanho da quantidade dos telespectadores da arte do Sumô no Brasil e o imagino pequeno, inclusive não encaixa no ideário ocidental de massa um atleta japa gordão vestindo o que conseguimos identificar na categoria de fraldas com um penteado de coque pra lá do maneiro. Até para um ocidental massificado, porém culto, a tradução dos valores do sumô são estranhos, e a tradução destes valores em entidades universais como por exemplo visuais (estéticas) e da técnica da luta (marciais) não condizem com o todo dos valores do sumô, pois essas separações entre, por exemplo, estética e marciais, não são distintas na tradição sumozistica que inclui preceitos morais e tantos outros dos quais sou ignorante. A tradição ocidental cientificista pragmática por sua vez consegue compartimentar em sua visão de mundo o que pode ser valorado pelo maior número possível de seres, daí o MMA, com seus valores claros e à-carne-vivas. A luta empobrecida pela necessidade valorativa massificada destituída  dos Valores de um lutador pleno no sentido humano. O que vale é a vitória clara, a narrativa condizente. Discussões técnicas, claro que proliferam em abundância entre os não lutadores, mas a técnica nunca foi um metro do humano.

 

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