VÁRIOS ANOS atrás quando eu ainda pensava em seguir os rumos da culinária, dona Cora me deu um livro publicado pelo Senac chamado A Culinária Paulista Tradicional. Vários tópicos e receitas neste livro me saltaram aos olhos, mas um comentário em especial sobre a receita de Macarronada de Casamento me chamou especial atenção e trabalha com uma questão que me cutuca até hoje. Me recordo que o autor comenta que por causa das marcas italianas a macarronada típica do começo do século XX, comida geralmente feita em ocasiões especiais, praticamente sumiu depois das marcas de macarrão italianos invadirem o Brasil metropolitano. Esta mesma noção de metropolitanismo internacionalista enterrou o que era a culinária tradicional paulistana, o Paulista como bom metropolitano se acha o centro do mundo e por causa de suas arrogâncias hegemônicas se enxerga como o núcleo, o centro, o zero, o parâmetro neutro da onde as particularidades regionais podem ser medidas, classificadas e valoradas -O que é uma mentira burra. O preço desta posição é que suas particularidades próprias costumam ser soterradas por parâmetros de outras metrópoles internacionalistas, estas nem sempre ingênuas e displicentes quanto à riqueza de suas particularidades originais.

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Costumamos esquecer mas um hamburguer é só a desgraça do pão e a maldita carne.

Hoje em dia, com o advento do hamburguer gourmet, o hamburguer comum de bairro perdeu seu lugar para uma loucura pernóstica, onde o que vale não é a honestidade mas os floreios, firulas e bichisses que inventam a partir do objeto hamburguer.  A coisa mesma (carne, pão) não é mais tão importante, mas sim o pomodoro confitado, a crosta de parmesão (tão melhor praticada pelas Towners de dogão prensado), os patês de foie (figado de galinha mesmo, mas engana os trouxas), e outras cretinices. O movimento que opera neste sentido é o mesmo que matou a Macarronada de Casamento, a internacionalização dos parâmetros. Não é como se existisse um padrão platônico de macarronada, praticada pelos italianos, a unidade italiana é uma invenção recente e sua culinária está bem segura dela, com suas particularidades intactas. Não existe O Hamburguer Perfeito, por mais que usem este termo publicitário à exaustão para promover besteiras e burrices. O que existe de realmente neutro não são os parâmetros, é o gosto dos consumidores destas invenções que a partir de forças invisíveis seguem caminhos sem escolhe-los, concordam de boca cheia com invenções recentes e ruins, engolem de bom grado uma macarronada ideológica sem saber quem fez essa massa.

 

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