Arquivos para o mês de: novembro, 2014

MINHA PATROA certa vez fez uma receita de molho de tomate que parecia tanto um molho de tomate que sequer era um molho de tomate, mas um molho de beterraba e cenoura. O curioso é que visualmente o molho parecia mais real do que um molho de tomate de verdade, que nunca tem aquele vermelho profundo dos comerciais. A receita veio do programa de culinária da Bela Gil, irmã da mais famosa Preta Gil, programa esse que obviamente passa no canal de tv a cabo GNT. Você poderia me fazer algumas perguntas sobre o prato, tais quais: “O molho, afinal de contas, fica gostoso? É parecido com o molho de tomate tradicional que estamos acostumados? Este molho vem de séculos de tradição e aperfeiçoamento como o molho de tomate tradicional?” E eu responderia: “Bom, na verdade não interessa muito isso para eu chegar onde quero com esse texto aqui mas, bem, talvez a terceira pergunta…”

beterraba

Uma cenoura e uma beterraba não formam um super tomate.

A relação dos humanos e também de outros mamíferos (como constatado através de cuidadosa observação empírica de cachorros roubando mistos quentes, por exemplo) com comida não funciona na base da simples nutrição, não se busca um ou outro alimento com a clara noção de aumentar a sua expectativa de vida, se busca na maioria das vezes o simples prazer de comer algo gostoso, embora a minha propensão de querer só comer salada alguns dias possa indicar certo apetite funcional que tenta acrescentar alguns anos à minha vida desregrada e errática. O processo que bela Gil desenvolve em seus pratos, sendo ela nutricionista de formação mista com culinária, não segue essa tendencia natural de comer algo gostoso, como seria o natural de um programa sobre comidas, mas ela utiliza a fórmula da teoria acima das coisas, de cima para baixo, como uma marreta na bigorna da ciência tentando aprumar a chapa metálica e disforme que constitui o humano. Qualquer aplicação excessivamente cientificista sobre coisas não científicas funcionam desta forma, se enxerga algo e se tenta emendar este algo a partir de outro conjunto valorativo que não necessariamente tem a ver com como a coisa funciona, se este método funciona ou não não pode ser determinado cientificamente, mas continuam tentando como se fosse.

Também existe algo neste exemplo que pode falar sobre o processo criativo, através das lentes da nutrição saudável existia a necessidade de um substituto do molho tradicional de tomate, a solução veio pela junção de dois vegetais teoricamente mais saudáveis, o aspecto visual foi o que amarrou a cenoura e a beterraba, com o intuito final de parecer mais tomate que o tomate e não ter gosto de nada no final das contas, mas o manjericão e o queijo até que enganam, um pouco.

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PASSANDO OS OLHOS por uma lista de 16 Coisas Que Vão Você Fazer Se Sentir Velho, pessoas da minha faixa etária ficam nostalgicamente emocionadas com o brinquedo no qual você fazia a autopsia de um alien com gosma dentro, ou com o jogo da vida, ou com os GI Joe, ou com o pogobol, ou inúmeros outros exemplos de nostalgia imbuída as produtos de massa. O problema é que essas coisas nos faz sentir velhos mesmo, e o real valor da idade perde sentido neste movimento, onde a descontinuidade de um produto faz você sentir todo o peso dos anos que o trouxeram até aqui.

Com os vinte nove anos que tenho, eu não sou velho, e algo que nunca quero perder a noção, o foco, é o valor que outros mais velhos que eu realmente possuem, que eu não tenho. Um ser humano de 60 anos, qualquer um deles, mesmo que seja um raquítico professor universitário, paupérrimo de experiências e mundo de fora, tem muito mais a me apresentar, de maneira muito mais complexa, do que eu poderia ser capaz de entender. Eles aprenderam lições que muitas vezes não são transferíveis através da linguagem codificada da escrita e fala, e é essa a diferença para mim entre conhecimento e sabedoria, e o mero (como se fosse pouco) existir no mundo, os deu uma sabedoria que você ainda não possui.

neb


Fora isso também existe uma velha ferramenta da retórica, o argumentum ad novitatem que, pelo próprio desenvolvimento e enraizamento do falso progressismo evolucionista em nossas jovens cabeças, nos faz sentirmo-nos velhos. A crença de que enxergar algo que nos foi próximo e não mais está lá, como o brinquedo de autopsia alienigena, aliado à constante e crescente ansiedade de estarmos perdendo algo sempre, nos autoriza confundir a perda de algo extremamente fugidio, com o peso idade, com o valor da experiência, com a gravidade da sabedoria. Não, você não está ficando velho, só está passando tempo de mais na internet.