UMA BOA BRIGA necessita de um chão comum, o conceito de agonismo vem do embate entre uma parte e outra, e para isso as partes precisam de um mínimo de compreensão do que, e quem, está sendo embatido, é necessário ao menos um grão de compreensão mútua para o desenrolar do confronto. Demorei longuíssimos anos para pensar e começar a compreender a ideia de que não é essa a única forma de embate, atualizada na ideia da boa briga na moral do senhor de Nietzsche ou nos duelos afetados dos cavalheiros, com suas pistolas imprecisas de um tiro só e vinte e seis regras. A disputa agonística, em sua noção de ser entre iguais, dá um tom até dialético para o processo, havendo perdas e ganhos de cada lado, mas mais para o vencedor obviamente. Claro que a suposta estéril ferramenta da dialética pode não ser tão neutra como muitos pretendem, uma luta montada com um vencedor de antemão, mas até esse processo oculto pode ser visto como uma briga em outra esfera, espécie de meta agonismo.

A partir do momento que algo existe, não é possível destruir este algo completamente, ou, parem de falar mal do Romero Britto.

A partir do momento que algo existe, não é possível destruir este algo completamente, ou, parem de falar mal do Romero Britto.

Quando há embate sem campo comum, seja por diferenças basilares ou de total incompreensão do outro, não existe a possibilidade do ganho, a não ser o ganho do pé sobre o cadáver do oponente. Assim se configura a esfera da destruição, e não do agonismo. O problema principal deste processo é que o aniquilamento nunca é completo, sempre subsiste uma posição, uma prática, uma teoria, uma chama inicial do objeto que se quer destruir. Objeto esse que pode até se fortalecer pelo fantasma do martírio, potencializando o objeto que se queria apagar do mundo. Eu prefiro a ideia do agonismo, dialético ou não, pois quando se tem um chão em comum existe possibilidade de aumento de conhecimento, de ganho geral maior, e não a mera vontade avassaladora de queimar os vilarejos e salgar as terras de quem não partilha nada com você.