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ESTAVA EU conversando com meu colega Stan Molina, quando ele me lembrou do melhor exemplo já inventado para explicar o recurso Deus Ex Machina. Que consiste em resolver abruptamente uma história que até aqui estava muito mal contada. Recurso inventado pelos gregos antigos, que tinham longa tradição de histórias muito mal contadas, Deus Ex Machina é uma alusão ao Deus da Maquina pois era comum em peças gregas um velhote fortão, vestido com um lençol, ser baixado por um guindaste para matar a tudo e a todos, resolvendo definitivamente a trama. Segue o exemplo que explica o recurso em termos tipicamente brasileiros, a novela das sete e pagar pau para gringos:

Um bom americano, quando próximo ao equador, precisa estar sempre munido de um belo de um chapéu Panamá.

Depois de disputar o galã a tapas a novela toda a antagonista trambiqueira, mas não necessariamente má, perde o amor de sua vida para a mocinha. Certamente não era ela que ia terminar com o cara, mas também não era pra coitada ficar sozinha o resto da vida, abandonada na pensãozinha do pai numa vila em Alagoas. Eis que ela está na varanda da pensão, suspirando enquanto vê as jangadas no mar, pensando como odeia esse buraco. Ela olha para o lado e quem ela vê? Direto de Massachusetts um americano bem apessoado, de meia idade, com seu chapéu panamá, um charmoso sorriso por baixo do bigode loiro e uma gorda conta bancária no Bank Boston.

Eles se olham e ele e diz “SEO PAH-IS EH MUY BO-NI-TOH” pimba, Deus Ex Machina, os dois se casam e mudam para a gringa onde ela pode viver seu sonho de princesa. Ou pelo menos é o que o enredo nos dá a entender, talvez o americano sente a porrada nela todo santo dia depois do casamento, malditos yankees. De qualquer forma é uma resolução da história de acordo com o que o público espera, que não tem nada a ver com a trama principal, mas que ata todos os nós que estavam soltos. Em uma trama mais mal resolvida talvez seja necessário um Sultão do Petróleo visitar a pacata cidade, se casar com metade do elenco e levar todo mundo pras arábias, já que a poligamia não é legalizada nos EUA. Malditos yankees.

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DOIS GRANDES alicerces, não compreendidos, da civilização humana são elogiados na poesia da feijoada. O enfarte e a pressão alta. Os dois vem desde sempre renovando quem está vivo e acontecendo no mundo atual de hoje em dia. Feijoada é um tapa na cara da saúde médica, é um bem vindo enorme aos prazeres carnais, aos excessos temerários e cumulativamente auto-destrutivos do dia à dia.

Eis que você, companheiro brasileiro, vai lá e tem a opção de, às quartas-feiras, pedir uma feijoada light. Essa opção, em roupagem saudável, é uma facada nas costas na ideia de light. Ela tem tanto sal (avc) e gordura (enfarte) quanto a opção completa. O sal de uma unidade de torresmo, que veio em uma feijoada light que comi recentemente seria capaz de causar um acidente vascular cerebral em três hamsters de porte médio.

O cerne é que a feijoada continua sendo a beleza crua da morte lenta, e eu admiro isso. A feijoada light consiste em falta de rabo, orelha e outras nojeiras. É só uma desculpa para cobrar mais caro quando não colocam o entulho mais barato na cumbuca que vem à sua mesa. Mas talvez os homens da ciência que não puderam, ainda, parar o câncer, o enfarte e o avc, possam criar um porco sem orelhas e sem rabo. Então todas as feijoadas serão iguais aos olhos do criador.

O QUE DEFINE um caipira em si? Qual o traço característico que o distingue de outras espécies? Será o lugar onde nasceu? O chapéu de palha? A enxada? A visão leve e resignada para com os infortúnios da vida? As metáforas, alegorias, parábolas e analogias envolvendo porteiras e cobras?

Duas pinceladas talvez definam melhor o caipira contemporâneo assim como o caipira primêvo, o Caipira Original. A camiseta de verador e a disposição desconfiada. A camiseta pois ele é um homem prático, sabe que as coisas não duram, e está mais interessado no preço da saca de feijão do que liquidações de roupas coloridas. Ele não quer saber se o candidato a vereador que deu-lhe a camiseta faz parte da coligação evangélica, direitista, esquerdista, centralista ou o caralho.

O olhar desconfiado também vem da vida prática e conhecimento empírico, saudavelmente não atento às nuances mais sensíveis do intelecto humano, ele desconfia de terreno desconhecido. Como essa tomada tem três pontas? O que rái é um smarfifone? Eu que não vou andar nesse tatuzão subterrâneo! O caipira original pisa em terreno firme, de preferência fértil e bem irrigado. Ele não precisa ser lavrador ou caseiro, apenas manter a espinha arqueada e estar sempre com a lingua engatilhada para disparar um sincero e totalizador “Uai?”.


Estava lá eu descendo a Cardeal Arcoverde no meu Lapa-R™, quando me deparei com um cavalete com os dizeres “Veículo Guinchado ligue 1188” e tive um momento de prazer. Me lembrou de quando eu trabalhava meio período e já tinha chegado em casa quando começava a chover (choveu muito aquele ano) e eu olhava para fora e começava a rir “MUAHUAHUA” das pessoas que estavam lá fora, levando balde d’água no côco. Me lembrou também do conceito de schadenfreude, e como eu achei ele imbecil quando vi pela primeira vez. Só agora talvez eu tenha me tocado que o problema estava na analogia que costumam usar para explicar esse conceito. Geralmente para explicá-lo usam um exemplo como “é como quando você ri quando vê alguém cair na rua” e eu penso “tu é um puta de um babaca, eu não acho graça nisso”, porque eu realmente não rio ao ver alguém cair na rua. Eu sou uma pessoa melhor que isso. Eu rio quando eu estou em casa sequinho e geral tá levando balde d’água no côco ou um retardado se fodeu porque deixou o carro parado na Cardeal de um dia pro outro, gênio. Me fez pensar também que vídeo cassetadas deve fazer um puta de um sucesso na Alemanha, deve ter um canal pay per view só com vídeo cassetadas. Inclusive se não tiver eu vou fazer agora.

foto de reconstituição