Arquivos para categoria: Estética

UMA BOA BRIGA necessita de um chão comum, o conceito de agonismo vem do embate entre uma parte e outra, e para isso as partes precisam de um mínimo de compreensão do que, e quem, está sendo embatido, é necessário ao menos um grão de compreensão mútua para o desenrolar do confronto. Demorei longuíssimos anos para pensar e começar a compreender a ideia de que não é essa a única forma de embate, atualizada na ideia da boa briga na moral do senhor de Nietzsche ou nos duelos afetados dos cavalheiros, com suas pistolas imprecisas de um tiro só e vinte e seis regras. A disputa agonística, em sua noção de ser entre iguais, dá um tom até dialético para o processo, havendo perdas e ganhos de cada lado, mas mais para o vencedor obviamente. Claro que a suposta estéril ferramenta da dialética pode não ser tão neutra como muitos pretendem, uma luta montada com um vencedor de antemão, mas até esse processo oculto pode ser visto como uma briga em outra esfera, espécie de meta agonismo.

A partir do momento que algo existe, não é possível destruir este algo completamente, ou, parem de falar mal do Romero Britto.

A partir do momento que algo existe, não é possível destruir este algo completamente, ou, parem de falar mal do Romero Britto.

Quando há embate sem campo comum, seja por diferenças basilares ou de total incompreensão do outro, não existe a possibilidade do ganho, a não ser o ganho do pé sobre o cadáver do oponente. Assim se configura a esfera da destruição, e não do agonismo. O problema principal deste processo é que o aniquilamento nunca é completo, sempre subsiste uma posição, uma prática, uma teoria, uma chama inicial do objeto que se quer destruir. Objeto esse que pode até se fortalecer pelo fantasma do martírio, potencializando o objeto que se queria apagar do mundo. Eu prefiro a ideia do agonismo, dialético ou não, pois quando se tem um chão em comum existe possibilidade de aumento de conhecimento, de ganho geral maior, e não a mera vontade avassaladora de queimar os vilarejos e salgar as terras de quem não partilha nada com você.

VÁRIOS ANOS atrás quando eu ainda pensava em seguir os rumos da culinária, dona Cora me deu um livro publicado pelo Senac chamado A Culinária Paulista Tradicional. Vários tópicos e receitas neste livro me saltaram aos olhos, mas um comentário em especial sobre a receita de Macarronada de Casamento me chamou especial atenção e trabalha com uma questão que me cutuca até hoje. Me recordo que o autor comenta que por causa das marcas italianas a macarronada típica do começo do século XX, comida geralmente feita em ocasiões especiais, praticamente sumiu depois das marcas de macarrão italianos invadirem o Brasil metropolitano. Esta mesma noção de metropolitanismo internacionalista enterrou o que era a culinária tradicional paulistana, o Paulista como bom metropolitano se acha o centro do mundo e por causa de suas arrogâncias hegemônicas se enxerga como o núcleo, o centro, o zero, o parâmetro neutro da onde as particularidades regionais podem ser medidas, classificadas e valoradas -O que é uma mentira burra. O preço desta posição é que suas particularidades próprias costumam ser soterradas por parâmetros de outras metrópoles internacionalistas, estas nem sempre ingênuas e displicentes quanto à riqueza de suas particularidades originais.

burgs

Costumamos esquecer mas um hamburguer é só a desgraça do pão e a maldita carne.

Hoje em dia, com o advento do hamburguer gourmet, o hamburguer comum de bairro perdeu seu lugar para uma loucura pernóstica, onde o que vale não é a honestidade mas os floreios, firulas e bichisses que inventam a partir do objeto hamburguer.  A coisa mesma (carne, pão) não é mais tão importante, mas sim o pomodoro confitado, a crosta de parmesão (tão melhor praticada pelas Towners de dogão prensado), os patês de foie (figado de galinha mesmo, mas engana os trouxas), e outras cretinices. O movimento que opera neste sentido é o mesmo que matou a Macarronada de Casamento, a internacionalização dos parâmetros. Não é como se existisse um padrão platônico de macarronada, praticada pelos italianos, a unidade italiana é uma invenção recente e sua culinária está bem segura dela, com suas particularidades intactas. Não existe O Hamburguer Perfeito, por mais que usem este termo publicitário à exaustão para promover besteiras e burrices. O que existe de realmente neutro não são os parâmetros, é o gosto dos consumidores destas invenções que a partir de forças invisíveis seguem caminhos sem escolhe-los, concordam de boca cheia com invenções recentes e ruins, engolem de bom grado uma macarronada ideológica sem saber quem fez essa massa.

 

ANO PASSADO, perto do meu aniversário, a minha tia morreu. Não digo faleceu pois me soa pouco sério, diminui o fato, como se fosse algo que vai embora quando você abana irritadamente as mãos como quem espanta uma mosca. Falecer não tem o peso irremediável que a palavra morte traz consigo, e esse peso é importante. Até hoje me pego pensando nela e nas escolhas que fez, em como decidiu ser e como ela era. Uma pessoa difícil, cheia de razões e que dizia com todas as letras que se colocassem o mundo nas mãos dela, ela resolvia tudo. Ela decidiu ser daquele jeito e seguiu em frente, me parece mais um projeto estético do que de vida, mas algumas pessoas tomam suas escolhas e ações mais a sério do que a vida em si. Elas são maiores que a vida, e às vezes a vida acaba com elas.

cestinhaconts

A cestinha que a doida da minha tia deixava pendurada na porta da cozinha, portando sacolas de supermercado dobradas até formar um triângulo.

Estava conversando com o Stan próximo disso, e ele me disse em seus breves surtos de lucidez “as pessoas tem a obrigação de ser da hora, se o cara for incapaz pelo menos tem que ter a obrigação de continuar tentando” eu concordei. Cada um tem o dever de ser maneiro, ou morrer tentando. A minha tia não era maneira porque era uma pessoa amável (embora fosse) ou conciliadora ou passiva (o que não era), ela era maneira porque era autenticamente ela mesma. E talvez isso tenha acabado a matando. É grande o peso de ser autêntico, de ter essa força na cara que você vira para o mundo, de engolir cuspe para seguir sendo você ao máximo apesar das forças contrárias. É uma força muito potente, mas que desgasta, que vai queimando. Me pego pensando nos pequenos propósitos que somos obrigados a nos dar para seguir existindo, pequenas metas, pequenos sonhos grandiosos, pequenas concessões, pequenas mesquinharias. Desde cedo me impus a obrigação de ser autêntico, talvez uma besteira que com os anos acaba cessando, mas é a minha besteira, e através dessa vontade, dessa potência em seguir existindo do meu jeito, eu sei que tento ser um cara maneiro.

MACARRÃO COM SALSICHA, Miojo e Ovo Frito, Miojo Apenas, Macarrão com Atum, Pão Francê com Leite Condensado, Leite com Groselha, Lasanha de Pão de Forma, Qualquer Coisa com Cremilly, Pudim de Pão, Arroz e Sardinha, Qualquer Coisa com Milho em Lata, Macarrão Massa de Ovos Renata Com Atum e Milho em Lata, Maionese de Seleta de Legumes, Qualquer Coisa com Seleta de Legumes, Catchup + Maionese = Molho Rosê, Qualquer Receita do Site Tudo Gostoso, Pão com Ovo, Creme de Leite + Maizena + Sal = Molho Branco, Arroz e Feijão com Macarrão, Pavê com Biscoito Champagne, Gelatina com Creme de Leite, Receitas que Contém Nescau.

cesta_basica-baixa

Você só precisa de uma cesta básica e uma boa dose de criatividade!

Comida de pobre não é culinária popular. Enquanto a culinária popular é observada pelo viés da gastronomia e da estética, a comida de pobre é pesquisada com as grossas luvas da antropologia urbana. É um engenho sem tradição que não deve nada a ninguém, que combina livremente os parcos ingredientes da comida processada. É seguir à risca uma receita que contém uma quantidade não recomendada pela OMS de creme de leite de caixinha. É fazer uma receita que veio impressa no creme de leite de caixinha. É uma culinária que prima pela ousadia na mistura de ingredientes comuns de sabores fortes, mas que olha para comidas exóticas com uma desconfiança perversa, e pretende continuar eternamente no conforto ameno do paladar infantil.

PS: Agradeço a minha amiga Thaise Oliveira, que ao descrever um prato que fez me abriu os olhos para este conceito importante para a cultura brasileira e suas problematizações instrínsecas.

VENHO AQUI explicar um conceito básico, embora pouco discutido, do comportamento humano. Em locais públicos humanos buscam se isolar de seus comuns. É por isso que quando você, com seu cabelo comprido e sua camiseta do Blind Guardian, entra com sua namoradinha num ônibus relativamente vazio, é difícil encontrar dois bancos, um ao lado do outro, vagos. Os passageiros não querem contato com os outros passageiros e procuram ficar sozinhos, assim se limitando à sua própria mediocridade para poder pensar sobre, seilá o que pessoas médias pensam, carros tunados, novela da band, car-system, enfim, em paz. E se há um banco público, um usuário certamente irá seguir a tendência de deixar um espaço vago entre ele e o próximo. É assim que o ser humano age, portanto, planejadores: façam sempre bancos em número ímpar! Já que um banco par, de quatro lugares, só tem dois lugares a principio, depois disso é questão de se acotovelar. Um banco de cinco lugares teria três lugares confortáveis antes de ficar desagradável para todos os envolvidos.

O suspeito como descrito para o retrato-falado.

Não sei se foi edital, licitação, decreto ou o quê, que instituiu para o município de São Paulo um projeto de pontos de ônibus tão bem pensado. Talvez tenha sido desenvolvido em tempos longínquos antes de algumas coisas que temos hoje em dia existirem, como por exemplo, chuva. Sempre que chove, o banco dos pontos de ônibus molha. Sempre, não importa a intensidade. Talvez esse fator antes era mitigado pelo fato de todo ponto de ônibus ter um backlight horrível, com propaganda horrível, que protegia as costas dos usuários e os bancos dos pontos, mas o ditador Al-Kash-Aab vetou a propaganda desenfreada nas ruas e, desde então, se uma leve garoa se aproxima, todos os bancos ficam imediatamente encharcados. Pelo menos ele tem um design arrojado que combina com 70% da arquitetura da cidade de São Paulo, se não pelos materiais e linhas, pelo estilo geral de extremo mal gosto estético.

PS: Um passarinho me contou que a próxima gestão municipal pretende trocar os atuais pontos de ônibus por palmeiras imperiais, mas só o tempo irá dizer.

COM O ADVENTO da internet, torrentz, legendas em PT-BR um dia depois do E07 S02 sair na gringa, TV com Pendrive e amigos nas midias sociais nos falando o que devemos assistir, perdemos a inocência de colar na videolocadora de havaianas e moletom numa sexta-feira chuvosa, sem saber que filme ver. São inúmeros os fatores que nos levaram a entrar nessa vala comum, mas os americanos inventaram um bom nome para um dos maiores responsáveis por isso. O famigerado “filter bubble”, que, a partir de suas escolhas anteriores, julga o que você deveria ou não ver. Limitando a sua escolha a coisas que você já conhece ou deveria conhecer.

Nada como um belo filme de Surf, manolo.

O que a locadora tem a nos ensinar? Bom, a locadora não obriga você a escolher uma coisa ou outra. Se você entra com os olhos atentos e o coração aberto em uma locadora, você vai para a estante que a sua predisposição atual o chama. Comédia, drama, cult, suspense, AÇÃO. Na locadora um filme é sim, julgado pela capa, e isso é sincero e bom.

Stan Molina outro dia foi à uma locadora sem saber o que queria ver, nisso avistou um belo de um filme de surf. Se ele ficasse no facebook, vendo as postagens dos seus amigos artistinhas, nunca que ele ia encontrar uma indicação desse belo filme de 2008. Livre como as ondas do mar, ele curtiu esse filme sem ajuda da internet.

SEMPRE TIVE um problema sério, talvez crônico, com hipérboles. Dizer com segurança “esse é o melhor cachorro quente do universo conhecido”, nunca foi algo que me veio naturalmente. Claro que com os anos fui aprendendo a dar uma exagerada aqui e ali, mas sempre tratei esse instrumento da retórica com desconfiança. E é por isso que admiro um açougue perto de casa. Coroando sua entrada existe uma faixa com os dizeres “ACEITAMOS CARTÃO DE CRÉDITO, QUALQUER VALOR”, que não tem nada a ver com o que eu estou falando aqui, o que interessa é a segunda linha da faixa que diz “AQUI VOCÊ FAZ UM BOM CHURRASCO”, não um ótimo churrasco, não o melhor churrasco das galáxias, apenas um bom churrasco. Achei digno.


Num raio de seis quadras desse sincero açougue você encontra: uma biboca com o cartaz “O MELHOR NHOQUE DE SÃO PAULO”, uma pastelaria que serve “O MELHOR PASTEL DE SÃO PAULO” e indo ao trabalho outro dia vi um furgão entregando na padaria “O MELHOR PUDIM DE SÃO PAULO”. Ou estou cercado de gênios da culinária ou existe algo errado com esse sistema de valoração. Eu prefiro ficar com UM BOM CHURRASCO do que com o melhor qualquer coisa. Eu posso confiar no simplesmente bom, talvez o bom seja melhor que o melhor.

Mas, para compensar, um amigo meu me contou de quando foi visitar Londres avistou um cartaz “The Best Kebab of London” e alguns metros de distância outro lugar, bem parecido com o primeiro, que tinha o cartaz “The Best Kebab in The World!”. Dessa segunda hipérbole aí eu gostei, essa segunda hipérbole aí eu achei maneira.

Entre os pixos “Mais amor por favor <3” e o “O amor é importante, porra” eu fico com “Amor é o Caralho”. Que só vi uma vez mas achei bem melhor que os dois outros, pois se assumia enquanto algo de fato. Defender o amor enquanto ente abstrato é tão útil quanto ser contra a corrupção, contra o câncer, contra o estupro. Acho muito estranho se impor contra algo que está subentendido que, se você for a favor, toda a sociedade de qualquer cultura e época da humanidade vai te execrar.


Também quero que vá se foder esse fascismo que está poluindo meus pontos de ônibus com poesia ruim em formato de lambe-lambe. Algo como “olhou apaixonado para a esposa e desviou o olhar quando ela viu” ou “dividir o fone de ouvido com seu amor, vontade de beijar” beija o meu saco peludo. Eu já li e escrevi a minha parcela de poesia ruim nessa vida, mas eu nunca obriguei a tiazona da sacola (figura mistica dos pontos de ônibus, que pretendo estudar com mais calma) a ler cocô. Cara, ela já passou por tanta coisa na vida que você não tem noção. Para de maltratar a coitada com sua tentativa infeliz de arte, por favor? Brasil Amoroso do caralho…