Arquivos para categoria: Ontologia

QUANDO EU ERA adolescente, fiquei fascinado com a ideia das medidas. Sobre como inventaram que um litro é um litro, um metro é um metro, etc. Achei incrível não existir um parâmetro neutro para medir as coisas e que só medimos algo através de bases mais ou menos arbitrárias, embora nossos amigos de jaleco tentem inventar padrões que pareçam neutros, vício do maldito objetivismo. Nada nos impede (a não ser talvez o bom senso) de usar uma caneta bic cristal como medida de comprimento ou massa (enquanto escrevo essas palavras acabo de jogar “quanto pesa uma caneta bic” no google e só consegui uma referência a como as tais canetas são a prova de que existem extra terrestres entre nós). Eu por exemplo, meço mais ou menos 11 canetas bic cristal.

O boi zebu, a medida mais neutra encontrada empiricamente.

O boi zebu, a medida mais neutra encontrada empiricamente na natureza natural.

Recentemente a minha querida amiga Manu Barem me deixou ainda mais perplexo com uma nova noção de medida, a famosa (entre o povo que cria gado) “Meia Hora de Boi”. Pelo que entendi consiste em abrir a porteira e, durante meia hora, deixar a boiada passar. Se existe um tamanho padrão de porteira ou se é conhecido o fluxo médio de cabeças de gado que passam por tal porteira eu desconheço. O que achei mais fascinante nesta medida é que a sua constante não é a massa ou o comprimento, nem mesmo o número de bois. A constante é o tempo. Você negociou com seu compadre e resolveu trocar um tanto de terra que tava sobrando por meia hora de boi, vai você lá falar com o capataz dele, ele abre a porteira e deixa ela aberta meia hora (uns dois minutinhos a mais, que ele é seu amigo do peito afinal de contas). Os cientistas podem não conseguir atribuir a localidade e a velocidade de uma particula ao mesmo tempo, mas com certeza não discordam sobre quanto mede Meia Hora de Boi.


PS: Infelizmente quando ouvi pela primeira vez essa linda medida, imediatamente me recordei de outra medida, a Meia Hora de Bunda. Exemplo meramente ilustrativo: “Por que você não cala essa sua boca e vai dar meia hora de bunda???”

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EM SEUS ANOS de formação, o ser humano começa a captar nuances e sutilezas exteriores ao próprio umbigo, aprende que existe um mundo externo a ele e pessoas constituídas mais ou menos da mesma maneira que ele próprio, mas com suas respectivas particularidades. Enfim, ele aprende que existe um fora-de-si, algo que não opera da mesma maneira que ele e contraditoriamente, ele coloca a maior dose possível de esperanças e projeções nesse objeto. Esse objeto é uma pessoa que geralmente é do sexo oposto, o que aumenta o número e o grau das inseguranças que este não-eu pode causar no pobre coração virgem. Em 97,4% das vezes, essa relação não irá se concretizar ou simplesmente não vai dar certo, e é bom que não dê, pois é um passo importante no desenvolvimento dessa pessoa que nasce, agora para um mundo expandido e consideravelmente mais assustador. Esse, grosso modo, é o processo do primeiro amor ou primeira paixão ou amor adolescente.

Gosto de pensar que todo papel de carta é um tratado de metafísica em potencial.

Gosto de pensar que todo papel de carta é um tratado de metafísica em potencial.

Obviamente o jovem coração não compreende desta forma o que acaba de ocorrer, para ele, ele SIMPLESMENTE MORREU ou NÃO DESEJA MAIS NADA NA VIDA e SEU GRITO ACORDARIA NÃO SÓ A SUA CASA MAS A VIZINHANÇA INTEIRA. Ao passar por esse trauma você sente algo num grau nunca antes imaginado, e, pela incapacidade da articulação de algo tão abstrato e avassalador, você tem a plena certeza que nunca, jamais na história da humanidade ou mundos possíveis, ninguém sentiu algo parecido, e ninguém (muito menos os seus pais) pode entender o que você sente agora. O que é absolutamente correto, pois você acaba de acordar para o cosmos, para o eterno, para as coisas maiores que si, ocorreu uma cisão entre o seu Eu e o mundo, e essa fenda nunca mais vai fechar. Acredito que seus pais, se amorosos e preocupados, tentaram explicar essa coisa, mas como você sabe, é impossível a articulação desse sentimento. Naquele momento o seu mundo de fato acabou e, aos poucos, irá se configurar em outro, mais complexo, menos romântico. E na próxima vez vai doer menos, eu prometo.

PROVAVELMENTE você já se pegou dizendo/pensando a seguinte frase: “Meu! Justo hoje, só porque eu vim sem guarda-chuva, me cai esse toró meu!”. Vamos destrinchar esse raciocínio aí meu querido. Esse é o exemplo mais comum sobre como funciona o pensamento teleológico. Teleologia é a maneira de explicar as coisas através de seus fins últimos, por ex. a água foi feita para matar a minha sede, ou negativamente, a chuva só caiu agora porque é sexta-feira e eu estou saindo do trabalho para tomar um chopps (merecidíssimo!) com a galera da firma meu. É como constatar que os inúmeros anos de desenvolvimento do universo foram feitos para que a goiabeira existisse para que o Chico Bento possa roubar as goiabas do pomar do Nhô Lau (e talvez levar um tiro de sal no bumbum [o sal inclusive {fora funções auxiliares para levar a este fim} foi feito para servir de munição para o Nhô Lau]). Vários filósofos combateram a teleologia e suas reduções, consideradas injustas, utilitaristas, e anticientíficas.

A Goiaba e o Guarda-Chuva, os símbolos máximos da Teleologia.

A Goiaba e o Guarda-Chuva, os símbolos máximos da Teleologia.

Esse tipo de pensamento é um processo natural humano. É gostoso pensar que as coisas existem para nos servir, assim nos colocando no centro, e acima, da natureza. Esta posição nos dá o controle e o direito de usufruir tudo o que pode nos ser útil, ao mesmo tempo explicando tudo o que existe (a não ser, por exemplo, baratas). Enfim, é muito desconfortável pensar que foi o acaso, boiando à deriva num mar de c@os, que culminou nas coisas serem como são no atual estado do cosmos.

É muito mais agradável e morno pensar que tudo o que existe tem um propósito, a água pra beber, a comida pra comer, o ar pra respirar. Mas por incrível que pareça as coisas me parecem bem melhores se nascidas de uma tempestade caótica de acasos improváveis e absurdos. Às vezes ao dormir penso no grande c@os, e as coisas, como são, me soam mais mágicas do que uma mágica. Faz eu me sentir minúsculo, assustado e sem controle real de nada. Faz eu me sentir feliz.

NO BUSÃO indo para o trabalho vi do assento, privilegiadamente alto, um cara pintando a fachada do Pão de Açúcar perto de casa. Masseando as imperfeições, passando uma mão de tinta, lixando a massa, passando outra mão. Fiquei com inveja, fiquei com vontade de empurrar a escada onde ele tava pendurado. A coisa, feita física, é muito mais coisa do que o cerebral/espiritual. Ela fica feita, ou mal feita, mas ela já aconteceu, ela é. Ela existe.

O recado do pintor para mim.

Até o safado do Locke desenvolveu sua teoria de propriedade a partir de preceitos parecidos, e é indiscutível como seu argumento é charmoso. Se você deixou algo, que não tinha dono, melhor através do seu trabalho, este algo é seu. Eu senti inveja do pintor/pedreiro que estava deixando a fachada do Pão de Açucar melhor.

Já pintei a minha parcela de paredes na vida, e sei reconhecer que uma parede bem pintada é uma parede bem pintada. Você olha pra ela e diz “Nossa, que parede bem pintada!”. Essa sutileza é perdida no trabalho intelectual. Uma ideia bem pensada é uma ideia desbastada até o fim, é um processo destrutivo, proveitoso por vezes, mas seu resultado não se revela por si só. É muito raro você olhar para algo e dizer com segurança “Eu deixei isso melhor!”. Mas uma parede bem pintada sempre será uma parede bem pintada.

BUSCANDO os limites da razão humana e uma possivel fundamentação da metafísica enquanto ciência. Kant, o filho de fabricante de correias preferido da filosofia ocidental (a partir daqui referido apenas como Emanuel), esbarrou na crítica à causalidade de Hume (que vou chamar de Hume mesmo). Emanuel partiu da problematização que Hume colocou, de que não é possível inferir uma causa de um efeito, posto que este efeito já teve que acontecer para sua causa tornar-se sua causa. Dando um imenso e temerário salto lógico, estabeleço minha cosmologia a partir daí:

Problema da Causalidade em Hume


Da impossibilidade da concepção de causalidade, sem nos referirmos a fatos já ocorridos, o mundo é determinado. Não temos acesso a uma cadeia causal que explique a interrelação do que existe. Podemos apenas esforçar nosso intelecto em generalizar uma artificial causalidade que nos justifique racionalizar o c@os. Pelos limites da razão humana temos acesso somente ao nosso processo interno, não existe nada imediato entre os fenômenos e nossa mente. A impossibilidade de inferir efeitos a partir de causas corta a possibilidade da suposição, não só do efeito, mas também da causa das coisas mesmas. Portanto só temos acesso ao que já foi, por intermédio de nossos processos internos, e do que é, agora, através das sensações. O que vai acontecer depois então, seilá meo, alguém tem que ver isso daí.

Se você apertou nos links e não sabe inglês tá aqui o link do Yazigi.