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GOSTO DE PENSAR na experiência de vida comum enquanto uma grande vontade cósmica de martelar sabedoria em nossas cabeças impenetráveis e, às vezes, um prego entra. Uma das virtudes mais elevadas, na minha humilde opinião, capazes do ser humano atingir é a humildade.  O comum quando consideramos o embate entre humildade e pretensão é achar que a segunda se configura apenas enquanto uma auto-afirmação no sentido de se achar o fodão. Mas como posto há pouco, talvez essa coisa não se configure tão facilmente assim. Existe uma forma mais vil, pois oculta, de pretensão.

Busão Trouxa

Estava eu atravessando uma famosa avenida no coração de São Paulo. O semáforo de pedestres tinha acabado de fechar quando avisto ao longe, do outro lado da avenida, o meu ônibus. Pensei “não consigo pega-lo, está meio longe, não dá tempo de chegar no ponto”. Falha de pretensão do segundo grau, o oculto. Quem sou eu para dizer que não ia conseguir? Eu tenho o conhecimento total para saber que tudo ia dar errado? Enfim, como de fato consegui chegar no ponto antes do ônibus, me senti vitorioso. Entrei no busão vestido do orgulho dos leões pensando “Hehehehehe! Acabo sair de outro ônibus, vou chegar em casa rápido e ainda tenho a integração do bilhete único. Hoje, Pedro Moreira Graça, você venceu o destino. Você é imbatível !!!”. Fui passar o bilhete e o confundi com outro bilhete que eu tinha no bolso, me dei conta ao ver os trágicos R$ 3,00 piscando na tela da catraca.

Através do mesmo objeto, de início o ônibus perdido e depois o ônibus dominado, tive uma lição de humildade que cessou toda a pretensão que me possuía.  Me senti nu, eu estava confuso, abatido, sozinho. Todo o prazer de conseguir pegar o ônibus que ia me deixar em casa deixou o meu corpo, como quem despe uma luva. O eco da humildade que me faltou, nas duas posições, permaneceu na cabeça. Eu era um nada, apenas um receptáculo para a pretensão das duas formas, ignorante do funcionamento total do mundo.

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EM SEUS ANOS de formação, o ser humano começa a captar nuances e sutilezas exteriores ao próprio umbigo, aprende que existe um mundo externo a ele e pessoas constituídas mais ou menos da mesma maneira que ele próprio, mas com suas respectivas particularidades. Enfim, ele aprende que existe um fora-de-si, algo que não opera da mesma maneira que ele e contraditoriamente, ele coloca a maior dose possível de esperanças e projeções nesse objeto. Esse objeto é uma pessoa que geralmente é do sexo oposto, o que aumenta o número e o grau das inseguranças que este não-eu pode causar no pobre coração virgem. Em 97,4% das vezes, essa relação não irá se concretizar ou simplesmente não vai dar certo, e é bom que não dê, pois é um passo importante no desenvolvimento dessa pessoa que nasce, agora para um mundo expandido e consideravelmente mais assustador. Esse, grosso modo, é o processo do primeiro amor ou primeira paixão ou amor adolescente.

Gosto de pensar que todo papel de carta é um tratado de metafísica em potencial.

Gosto de pensar que todo papel de carta é um tratado de metafísica em potencial.

Obviamente o jovem coração não compreende desta forma o que acaba de ocorrer, para ele, ele SIMPLESMENTE MORREU ou NÃO DESEJA MAIS NADA NA VIDA e SEU GRITO ACORDARIA NÃO SÓ A SUA CASA MAS A VIZINHANÇA INTEIRA. Ao passar por esse trauma você sente algo num grau nunca antes imaginado, e, pela incapacidade da articulação de algo tão abstrato e avassalador, você tem a plena certeza que nunca, jamais na história da humanidade ou mundos possíveis, ninguém sentiu algo parecido, e ninguém (muito menos os seus pais) pode entender o que você sente agora. O que é absolutamente correto, pois você acaba de acordar para o cosmos, para o eterno, para as coisas maiores que si, ocorreu uma cisão entre o seu Eu e o mundo, e essa fenda nunca mais vai fechar. Acredito que seus pais, se amorosos e preocupados, tentaram explicar essa coisa, mas como você sabe, é impossível a articulação desse sentimento. Naquele momento o seu mundo de fato acabou e, aos poucos, irá se configurar em outro, mais complexo, menos romântico. E na próxima vez vai doer menos, eu prometo.

PROVAVELMENTE eu sofro de uma psicopatologia cuja qual eu não havia visto nenhuma descrição ainda. Estou chamando ela provisoriamente de Distúrbio de Otimismo Semioticista, ou DOS. O indivíduo que sofre de DOS é refém de alguns sintomas não necessariamente maléficos para a sua saúde, mas que podem colocar sua vida social em sinuca algumas horas. A principal característica para identificar alguém com DOS é quando ele interpreta algo muito além do necessário e julga que a pessoa que teve a ideia de algo é muito mais genial do que de fato é. A descrição vai ficar clara com o exemplo a seguir:

Apenas uma mente debilitada acha que isso…

Eu estava andando na rua outro dia e recebi um folder de alguma exposição do MASP, eu peguei o folder e olhei atentamente para o logo do MASP. Eu nunca tinha olhado direito para ele. Me deu uma luz “Nossa, que foda, o logo do MASP é baseado no gráfico pluviométrico da cidade de São Paulo!”. Não, o logo do MASP muito provavelmente não é baseado no gráfico pluviométrico da cidade de São Paulo, eu estava sofrendo um surto de DOS. Só uma mente delirante para inventar que um logo que como o falecido logo do Senac e o da TV Cultura, que não passam de um monte de elementos abstratos empilhados, tem tanta semiótica por trás.

…é baseado nisso.

Um dos principais objetivo ao identificar uma psicopatologia é compreender melhor os indivíduos que sofrem delas para tentar reintegrá-los à sociedade. Se você identificar ao menos dois desses sintomas em um coleguinha fique atento:

1. Interpretações exageradas de relações de imagem ou idéias.

2. Identificar inteligência onde ela claramente não existe.

3. Estado de quase transe ao observar objetos e imagens do cotidiano.

4. Ligações forçadas da cultura pop com cultura erudita ou científica.