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ACHO QUE grande parte da função do trabalho categorial, classificatório, é parar de pensar sobre a coisa categorizada. Não estou falando apenas, mas também, do desvio de função comum aos departamentos de uma empresa: “esta não é a minha função” de quando se utiliza esse artifício para jogar a pica para outra pessoa, movimento que no final das contas, quando se está de fato envolvido no trabalho moralmente, acaba sendo um problema seu também, e isso fala mais sobre a sua postura moral para com o todo do que da estrutura funcional da empresa. O problema geral que quero tratar aqui, que empobrece o pensamento sobre um objeto, se aplica mais claramente quando se dá por encerrada uma questão a depositando adequadamente em uma supra categoria que não explica muito, como por exemplo classificar um problema enquanto “cultural”, muito comum e muito inútil hoje em dia na segunda década do segundo milênio da era cristã no calendário gregoriano.

mesa

Saber onde as coisas devem ir não quer dizer que você sabe o que fazer com elas.

Peguemos a noção de algo ser cultural, essa denominação sequer pertence a uma categoria mesma por poder significar distintas áreas não apenas do conhecimento dos doutos mas também do senso comunzão de nois aqui do ponto de ônibus, com o qual trabalhamos diariamente. Cultura pode significar no mesmo movimento povo, erudição, peculiaridade, tradição, nação, entre outros variados sentidos mais vazios como a função publicitária alimentada de uma noção de pertencimento materialista colecionista, como por exemplo a cultura sneaker. O trabalho categorial na maior parte das vezes encerra o trabalho de pensamento sobre o objeto, o que não é necessariamente ruim, posto que pode ser muito útil parar de pensar sobre algo, mas a mera coleção de conceitos devidamente categorizados, especialmente quando as categorias não são fruto de questionamento sério, não é um trabalho de fato, e pode funcionar como um arraigamento vil de supra noções não apenas inúteis, como também daninhas, pois além de descartar apressadamente o pensamento sobre os objetos mesmos, se deposita cada vez mais crença em uma superestrutura que continua imune ao pensamento sério.

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UM PENSAMENTO conscientemente horroroso que invade a cabeça de adolescentes (de qualquer idade) quando estão envolvidos em algum enlace amoroso monogâmico é o seguinte “E se durante este tempo que estou com esta pessoa eu encontrar alguém melhor?” e as qualidades do objeto amoroso delas são postas em diferentes metros, para medir nelas as vantagens e desvantagens, os erros e acertos e, em grande parte, sua adequação a um ideal do que esta pessoa, que não tem experiência em saber como funcionam pessoas, inventou previamente, conscientemente ou não. Quando se mede alguém desta forma a analise é unidirecional, não se enxerga a relação que existe na interação dos objetos amantes, apenas o outro e suas características, o objeto amado é enxergado enquanto uma fase, um degrau na escada para o amor perfeito, o amante ideal e a promessa final de felicidade plena mesmo em vida.

andaime

O pensamento progressista ingênuo, em seus inúmeros fronts, opera justamente desta maneira. Através de um objetivo, de um telos claro, e da redução do mundo em teorias, lentes e instrumentos que o ajudam a comprimir, simplificar e operar ele através destas reduções. O problema da redução extrema é justamente este, quando você vai ver, está se remetendo a estes esquemas simplistas e não à coisa mesma, no caso do progressismo a redução do mundo e suas vissicitudes às operáveis pela teoria, no amor à redução e objetificação funcional da pessoa. No final das contas, a mesma coisa, o mesmo processo.

A alegoria do andaime é muito mais rica do que a da escada. Na escada você, no contexto narrativo de subí-la, esta substituindo um degrau pelo outro, um mais baixo por um mais alto. No andaime você está construindo uma estrutura artificial e provisória que sustenta o objeto final mesmo que está sendo erguido, enquanto ele é construído. O andaime, por sua consciente funcionalidade temporária, após a construção da coisa mesma, é desmontado ou destruído, sua operação artificial não torna-se mais necessária pois a estrutura mesma que foi erguida a partir dele se sustenta sozinha.

Eu prefiro o andaime.

AS ARTES CHAMADAS marciais perderam, em suas mais recentes encarnações, o que havia do que comumente se denomina Cultura. Existem valores compartilhados que são amplamente reconhecidos entre os fãs de MMA que não necessariamente são fundantes no que concerne as artes marciais matriciais que ajudaram a formar as técnicas utilizadas neste grande esporte de pay per view.

Fui durante vários anos um praticante do Karate do Goju Ryu, e vale traduzir algo disso para a rica compreensão do que se identifica enquanto uma arte marcial. Literalmente “karate do goju ryu” quer dizer “o caminho das mãos vazias, leve pesado”. O karate não é uma técnica, é uma tradição. Praticar o goju ryu não é apenas treinar golpes e praticar uma ginástica específica, existe um conjunto de valores, e uma identidade de compreensão de sentido de mundo, intrínsecos à pratica. Se aprende a dar uma mãozada na têmpora do oponente e um soco na boca do estômago e um soco certeiro no gogó, claro, se aprende também a usar várias armas brancas (incluindo ¾ das dos que os tartarugas ninjas usam), mas também se aprende a entender o conceito do leve e pesado e aprender que não é a mesma coisa que se aplica a qualquer situação. Também se aprende a noção de hierarquia.

caminho

A sociedade pragmatista contemporânea necessita, em seus grandes espetáculos de massa, valores que possam ser compartilhados pelo maior número possível de clientes, daí o sucesso do MMA. Imagino o tamanho da quantidade dos telespectadores da arte do Sumô no Brasil e o imagino pequeno, inclusive não encaixa no ideário ocidental de massa um atleta japa gordão vestindo o que conseguimos identificar na categoria de fraldas com um penteado de coque pra lá do maneiro. Até para um ocidental massificado, porém culto, a tradução dos valores do sumô são estranhos, e a tradução destes valores em entidades universais como por exemplo visuais (estéticas) e da técnica da luta (marciais) não condizem com o todo dos valores do sumô, pois essas separações entre, por exemplo, estética e marciais, não são distintas na tradição sumozistica que inclui preceitos morais e tantos outros dos quais sou ignorante. A tradição ocidental cientificista pragmática por sua vez consegue compartimentar em sua visão de mundo o que pode ser valorado pelo maior número possível de seres, daí o MMA, com seus valores claros e à-carne-vivas. A luta empobrecida pela necessidade valorativa massificada destituída  dos Valores de um lutador pleno no sentido humano. O que vale é a vitória clara, a narrativa condizente. Discussões técnicas, claro que proliferam em abundância entre os não lutadores, mas a técnica nunca foi um metro do humano.

 

ESCATOLOGIA é uma palavra de duplo sentido, não no sentido duplo de piadas com pepinos e nabos e cenouras e bananas e beringelas e abobrinhas etc. A palavra escatologia, além do sentido que faz você habilitar a busca segura no seu navegador web de preferência, tem uma função nomeadora bem distinta, de designar o fim. A palavra em sua raiz quer dizer, o estudo do fim. Não o fim num sentido de finalidade, mas mais como as três letras, em tipografia bem selecionada, que se avolumam ao centro da tela antes do letreiro do cinema subir. O estudo do fim, do fim dos tempos, do fim do mundo, do fim de tudo enfim. Algumas das cosmologias (das ditas) mitológicas dignas de nota que compraram e compram esta ideia da escatologia são, por ex o ragnarok dos odinistas e o juízo final dos cristãos. Outra mitologia que compra esta ideia, embora de forma um tanto distinta, é o socialismo. Em seu simbolismo e promessa de salvação, o socialismo é uma escatologia terrena em vida, de resolução histórica que visa a justiça material da humanidade, em lugar de um espetáculo apoteótico e pirotécnico da resolução moral e espiritual como o que prega o velho testamento.

A foice do camarada junta ao clarim da passada de régua.

Nas escatologias felizes esta ideia de solução de tudo é o que perpassa. A noção suprema de um passar de régua cosmológico impera, um acerto de contas total e irrestrito. Em nossas vidas criamos pequenas metas, micro-escatologias, e as imbuímos com nossas questões e problemas insolúveis. Criamos míopes sentidos de vida pelos quais nos projetar, curtos quase-palpáveis objetos de desejo, muitas vezes vislumbrando um não-querer-alcançar-los, pela segurança de solução que eles prometem que, no íntimo, sabemos impossíveis. Uns mil reais a mais, uns tantos quilos a menos, nunca estamos onde queremos estar, e isso nos adoece ao mesmo tempo que alimenta o nosso devir.A foice da justiça material e o clarim anunciando o juízo final, são maiores do que nós. A representação de desejos claros e certos, de coisas dignas pelas quais existir, um fim histórico para quem nunca foi história. A humanidade empurrará sempre à sua frente ou arrastará sempre às suas costas uma fome parecida. É necessária uma escatologia limpa para dar norte à força gasta e, mesmo após o fim do indivíduo, mesmo às costas do abismo, é necessário um sentido, algo que motive a queda. Mesmo que a queda aconteça sem ninguém para escutar. Proponho a quebra deste ciclo.

NO SEGUNDO século antes de cristo estava em voga o embate: DOXA versus EPISTEME. Doxa é a crença comum, a opinião popular; as ideias sobre politica do peixeiro no mercado de Atenas, análogas aos argumentos do taxista pró-maluf da decada de ‘90 em São Paulo. Episteme é o conhecimento checado, chato, exato e sábio dos filósofos.

Doxa em Ação™

Em meio a caga-regras e opiniões mais fundadas em manchetes de matérias do que no texto dessas próprias matérias, a internet é terreno fértil para achismos e posições baseadas em cascas de cascas de cascas. É o Reino da Doxa, onde sua hegemonia é divina e irrestrita. E EU ACHO curiosa a incapacidade de ler e interpretar textos em um meio que o texto ainda é a maior forma de comunicação.

Sinto um prazer imenso ao ler um comentário, longuíssimo, de uma matéria que começa com “NÃO LI O texto inteiro, mas acho que…”. Diz muito, diz praticamente tudo. As pessoas parecem precisar ter opinião, o que não é uma necessidade primêva de alguém que se encarrega do trabalho de pensar, que no final das contas é muito mais parecido com trabalho braçal e muito menos glamouroso do que acham. As coisas são confusas, complexas, assutadoras e maiores do que aparentam ser, e é bom que assim sejam. É um prazer imenso, egoísta e nobre, não saber o que achar de algo. Dá um gostinho especial pra vida.

ROUBANDO a ideia em forma, gênero e grau, começo uma série iniciada pelo meu grande colega e filósofo Stan Molina. Grandes Diálogos. Ela pode ou não ter continuação, série não é compromisso. Segue:

eu: cara, se brincar a gente podia comprar um galpão e colocar uns três professores de yoga anêmicos cuidando de uma horta orgânica gigante

no coração de são paulo

aí a gente faz um serviço de entrega semanal

os cara de bike, lógico

vamos virar os reis de perdizes

stan:  é mais do que sustentável isso aí

eu:  sustentar minha continha no itaú huahuahuahauahuahu

stan:  huahauuha

eu:  se der treta com praga a gente contrata um biologo doidera e chama ele de “Encantador de Joaninhas”

stan: cacetada

Biólogo Robson, O Encantador de Joaninhas.

PÅO FRANCÊS, atum em lata, tomatinho cortado. Era a minha idéia de um almoço econômico e, por que não? Saboroso. Não sei o que houve naquela cidade para eu ir em três vendas perto do trabalho procurando um maldito de um tomate para comprar. Não tinha. Segui em frente com a meu plano original e comi pão francês com atum ralado enlatado em óleo comestível. Comestível, não é uma expressão muito apetitosa.

Não me parece um elogio à comida ter que descriminá-la enquanto comestível. Abri a lata do atum, drenei o que consegui do óleo e montei dois sanduíches. Comi  na sala dos fundos da firma, joguei um molho de pimenta mas só pareceu piorar. Alguém da firma foi lá atrás e ficou puxando papo comigo enquanto eu comia, eu não queria papo, eu só queria um tomatinho pra incrementar o meu atum. Aliás com esse preço do tomate provavelmente não seria um lanchinho econômico não ;(

Boston & Bigs #1

A Descoberta