EM ANTROPOLOGIA CULTURAL existe um jeito, talvez meio antiquado, de separar dois tipos de cultura por seus instrumentos de manutenção da obediência civíl. A Sociedade da Culpa e a Sociedade da Vergonha. Tradição não é um dos valores humanos mais, ahm, valorizados ultimamente, embora eu não saiba (mais por preguiça e falta de conhecimento mesmo) enumerar os motivos todos que culminaram no abandono desse velho valor. Basta dizer que é um dado presente para quem quiser se debruçar, mesmo que apenas um pouco, sobre o assunto e que com isso o velho modo de inculcar regras morais gerais na galera também acabou perdendo com esse movimento. Nas redes sociais por exemplo, existem moralidades conflitantes se debatendo continuamente (no sentido de um peixe que se debate no chão do barco mais do que uma discussão racional), mas não aparenta se desenvolver um conjunto de regras morais gerais. O que acontece é que hoje em dia cada indivíduo tem seu conjunto de valores morais mais ou menos pessoais, não existe uma regra moral vigente clara, e este debater não costuma gerar discussões positivas no sentido de criar uma nova regra moral geral.

O Macaquinho da Culpa e o Toelho da Vergonha.

O Macaquinho da Culpa e o Toelho da Vergonha.

A internet, com tudo o que ela trouxe de maluco, parece se configurar sem este suposto conjunto de regras morais, mas existe nela um espírito de Senso Comum que começa a mostrar suas asinhas. Parte deste espírito abstrato se configura em um método que pela maneira própria que a internet funciona é capaz de vigiar, julgar e punir no mesmo movimento, com uma velocidade um pouco assustadora. Se é possível dizer que a internet é uma sociedade, ela está se mostrando uma sociedade da vergonha ao invés de uma sociedade da culpa, onde o medo da repercussão de seus atos não é fundado em uma consciência interior, mas no receio de ser julgado e humilhado publicamente por seus iguais. Nessa configuração os atos morais não se prescrevem de acordo com regras fundantes internas, mas por uma noção de constante observação e punição (do e pelo próximo) sempre presente. Não interessa o que você sente em seu íntimo, o erro está em colocar algo moralmente execrável em público e, do mesmo modo que na internet as pessoas costumam não ter muita noção de até onde suas palavras podem chegar, elas no ato de julgar o próximo, também não medem a forma e a força de seus ataques.

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ESCATOLOGIA é uma palavra de duplo sentido, não no sentido duplo de piadas com pepinos e nabos e cenouras e bananas e beringelas e abobrinhas etc. A palavra escatologia, além do sentido que faz você habilitar a busca segura no seu navegador web de preferência, tem uma função nomeadora bem distinta, de designar o fim. A palavra em sua raiz quer dizer, o estudo do fim. Não o fim num sentido de finalidade, mas mais como as três letras, em tipografia bem selecionada, que se avolumam ao centro da tela antes do letreiro do cinema subir. O estudo do fim, do fim dos tempos, do fim do mundo, do fim de tudo enfim. Algumas das cosmologias (das ditas) mitológicas dignas de nota que compraram e compram esta ideia da escatologia são, por ex o ragnarok dos odinistas e o juízo final dos cristãos. Outra mitologia que compra esta ideia, embora de forma um tanto distinta, é o socialismo. Em seu simbolismo e promessa de salvação, o socialismo é uma escatologia terrena em vida, de resolução histórica que visa a justiça material da humanidade, em lugar de um espetáculo apoteótico e pirotécnico da resolução moral e espiritual como o que prega o velho testamento.

A foice do camarada junta ao clarim da passada de régua.

Nas escatologias felizes esta ideia de solução de tudo é o que perpassa. A noção suprema de um passar de régua cosmológico impera, um acerto de contas total e irrestrito. Em nossas vidas criamos pequenas metas, micro-escatologias, e as imbuímos com nossas questões e problemas insolúveis. Criamos míopes sentidos de vida pelos quais nos projetar, curtos quase-palpáveis objetos de desejo, muitas vezes vislumbrando um não-querer-alcançar-los, pela segurança de solução que eles prometem que, no íntimo, sabemos impossíveis. Uns mil reais a mais, uns tantos quilos a menos, nunca estamos onde queremos estar, e isso nos adoece ao mesmo tempo que alimenta o nosso devir.A foice da justiça material e o clarim anunciando o juízo final, são maiores do que nós. A representação de desejos claros e certos, de coisas dignas pelas quais existir, um fim histórico para quem nunca foi história. A humanidade empurrará sempre à sua frente ou arrastará sempre às suas costas uma fome parecida. É necessária uma escatologia limpa para dar norte à força gasta e, mesmo após o fim do indivíduo, mesmo às costas do abismo, é necessário um sentido, algo que motive a queda. Mesmo que a queda aconteça sem ninguém para escutar. Proponho a quebra deste ciclo.

VOCÊ PODE ser o que você quiser. Costumam falar isso quando você é criança, e é verdade. São algumas verdades, na verdade, em dois sentidos distintos. O primeiro vem da ideia, amplamente defendida e bela, de que as crianças são entidades alheias ao pragmatismo cruel do mundo. Seus sonhos são protegidos na crença de que essa fase da vida é relativamente sagrada e suas ideias loucas e incongruentes devem ser protegidas e respeitadas, até a linha temporal abstrata da maturidade martelar suas próprias verdades nas cabecinhas incautas dos lúdicos sonhadores. A segunda é um pouco mais chata e vai de encontro ao pragmatismo defendido das crianças, que é a da noção de que em qualquer sociedade civil relativamente livre, você pode desempenhar a função que almejar (contanto que seja uma função). Vulgarmente, você precisa de um emprego, de um ganha pão, mas pode ser o emprego dos seus sonhos. Soa meio abstrato? É porque é mesmo.

menino e enxada

Crianças tem asas, adultos ferramentas.

Grande parte das frustrações do homem moderno (se não todas) habitante de uma sociedade mais ou menos livre, vem desta abstrata noção que você deveria fazer o que o faz bem, grosso modo seguir suas aptidões e encontrar um lugar dentro deste caldeirão cultural maluco que é a sociedade na qual você nasceu e do qual você  não tem muita possibilidade de sair. Você tem que trabalhar com o que você gosta ao invés de gostar do seu trabalho, embora nos vendam a ideia de que o segundo seguirá da realização do primeiro. O primeiro obviamente parece muito gostoso e ideal e o segundo (se não derivado do primeiro) horrivelmente castrador e triste, embora mais realista. Você pode ser o que você quiser, realmente pode, e isto é extremamente limitador geralmente, pois precisa de empenho e foco e meta e várias coisas que não nos ensinaram nos anos pré púberes onde essa ideia era defendida.

É muito mais fácil ter gana e foco e ambição quando a sua atividade é mais clara dentro do jogo que você joga, se você quer ser o contador mais fodido da sua paroquia de contadores medianos provavelmente tem mais chance de conseguir isso do que, por exemplo, querer resolver os problemas da sociedade moderna se você acha que a música tonal é o inimigo a ser derrotado (pois acha que ela cria preconceitos além dos perceptivomusicais na criação do ser humano enquanto ser holístico indissociável de um universo existente apenas através da noção de existência enquanto intersubjetividade ativa de todos [Nossa, filosofei agora hein? Risos.]).

Você pode ser o que você quiser sim, mas é provável que você seja o tipo de gente que vai entrar em crises pontuais e cíclicas do que é esse querer-ser. Provavelmente na adolescência, na jovem adultice, na meia idade, e depois você cansou disso tudo e apenas vê a vida passar sem resolver muito as suas questões. E é um caminho válido, o da sábia resignação, mas só é sábio com alguma mínima paz de espírito e capacidade de respeito ao próximo, mesmo que esse respeito se configure em um plácido silêncio e um leve dar de ombros para o que você considera errado, se este errado não for daninho a alguma existência fora da sua.

VOCÊ, caro leitor, não é especial. Ninguém é especial, é um dos conceitos humanistas que calharam no estado moderno, através de mais uma invenção grega, a isonomia. Em sua raiz a palavra destrinchada vira ἴσος (isos [mesmo, igual]) νόμος (nomos [regra, lei]), ou seja, iguais leis. Não irei fazer a banal distinção entre direitos e deveres pois ela já foi mais usada do que (eu colocaria aqui o termo “sua mãe” mas eu o respeito profundamente, caro leitor [respeito a sua mãe também]) alguma coisa que já foi realmente usada de mais. Prefiro chamar atenção para um termo muito utilizado hoje em dia – privilegio, que vem do latim (pasmem) privilegius que quer dizer ao pé da letra Lei Privada.

Todos nós alguma hora já pensamos que algo deveria ser diferente conosco, seja com coisas da natureza quanto com regras humanas, que né, aquela hora lá, aquela regrinha podia ser mais líquida né? Afinal não vivemos em uma ditadura. Bom, meu querido, a própria ideia de não vivermos em uma ditadura reforça essa coisa da isonomia, não existe um grupo ou indivíduo com mais direitos do que outro. Bom, mas comigo podia ser diferente né? Eu sou um cara tão legal, dá um desconto. Por princípio, sinto muito, não. Podemos observar em inúmeros casos como o ethos brasileiro geralmente tem dificuldade em entender este conceito. É possível encaixar este pedido de relaxada do sistema em duas esferas, na teleológica quando barganhamos (sem muito efeito) diretamente com a natureza e na ético-moral quando pedimos uma colher de chá pro seu guarda que está na sua frente com o caderninho de multa mesmo.

Quando o martelo acaba seu trabalho, amigão, todos os pregos estão mais ou menos no mesmo nível.

Quando o martelo acaba seu trabalho, amigão, todos os pregos estão mais ou menos no mesmo nível.

O antropólogo Roberto da Matta identifica na confusão entre esfera familiar e esfera pública (esse jogo moleque mulato faceiro do brasileiro [bem brasil mesmo]) uma possível origem da falta de noção de isonomia entre o povo da feijoada. Se é eu não sei, mas não acho estranho identificar essa deficiência no brasileiro. Se você acha que alguma hora quando você Chegar Lá o mundo irá tratar você diferente, bem, pode até ser que o mundo trate você diferente, seu paquitão, mas não deveria, por princípio. É meio reconfortante a abstrata noção de que algum dia você vai Chegar Lá, e por não me refiro apenas a realizações materiais, espirituais e intelectuais, mas um lugar próximo à ataraxia. Um nirvana palpável onde suas frustrações irão simplesmente evaporar no horizonte do bem estar perene. É realmente  reconfortante pensar assim,  realmente reconfortante e bem infantiloide.

COM ARGÚCIA cirúrgica, a famosa jornalista Alexandra Moraes definiu apenas em três palavras um ente especial e único, fruto de nossa sociedade (atual e além) e figura sempre presente em diversas esferas. O Treteiro de Balada. Como todo bom conceito, a própria cunhagem do termo faz algo que já existe no mundo real ficar mais real ainda, destacado este algo do pano de fundo desse mundão comum que infelizmente habitamos. É o trabalho que tento fazer neste humilde blog em alguns casos, como por exemplo a polêmica conceituação da Comida de Pobre. Mas vamos analisar essa coisa em si agora.

Treteiro de Balada
Ele se sente bem consigo mesmo, é um cara que se cuida, um cara que se curte. Ele pode tanto gostar de uma vodka com red bull quanto nem curtir beber, tanto faz , o que ele gosta é de arrumar briga. Chegar na mulher do próximo, peitar o guardador de carro, intimidar fisicamente os próprios amigos de maneira hostil porém camarada, etc. Ele gosta de se achar. Acima de tudo o treteiro de balada é múltiplo, ele foge de classificações binárias materialistas. Ele pode ser rico, pode ser pobre, o que interessa é ele estar a fim de confusão e disposto a quebrar uns narizes, até o próprio nariz, especialmente o próprio nariz se for ver bem.

O Treteiro de Balada foge das classificações caretas de posição política como direita ou esquerda, ele é adepto do caos e seu compromisso é com a bagunça. No final das contas, ele parece seguir propósitos mais nobres do que os de esquerda ou direita; a ver, provocar o quebra quebra. Ele pode ser um playboy do império romano, um líder tribal que dura apenas duas semanas, um filho de comerciante indiano da época do Rigveda, ele pode ser um simples construtor de pirâmides mais topetudo. O treteiro de balada é figura presente no próprio tecido formador da sociedade e, no final das contas, tanto faz seu estatuto politico ou que estrato social ele habita, o que ele quer é flexionar seus músculos e arrumar encrenca.

QUANDO EU ERA adolescente, fiquei fascinado com a ideia das medidas. Sobre como inventaram que um litro é um litro, um metro é um metro, etc. Achei incrível não existir um parâmetro neutro para medir as coisas e que só medimos algo através de bases mais ou menos arbitrárias, embora nossos amigos de jaleco tentem inventar padrões que pareçam neutros, vício do maldito objetivismo. Nada nos impede (a não ser talvez o bom senso) de usar uma caneta bic cristal como medida de comprimento ou massa (enquanto escrevo essas palavras acabo de jogar “quanto pesa uma caneta bic” no google e só consegui uma referência a como as tais canetas são a prova de que existem extra terrestres entre nós). Eu por exemplo, meço mais ou menos 11 canetas bic cristal.

O boi zebu, a medida mais neutra encontrada empiricamente.

O boi zebu, a medida mais neutra encontrada empiricamente na natureza natural.

Recentemente a minha querida amiga Manu Barem me deixou ainda mais perplexo com uma nova noção de medida, a famosa (entre o povo que cria gado) “Meia Hora de Boi”. Pelo que entendi consiste em abrir a porteira e, durante meia hora, deixar a boiada passar. Se existe um tamanho padrão de porteira ou se é conhecido o fluxo médio de cabeças de gado que passam por tal porteira eu desconheço. O que achei mais fascinante nesta medida é que a sua constante não é a massa ou o comprimento, nem mesmo o número de bois. A constante é o tempo. Você negociou com seu compadre e resolveu trocar um tanto de terra que tava sobrando por meia hora de boi, vai você lá falar com o capataz dele, ele abre a porteira e deixa ela aberta meia hora (uns dois minutinhos a mais, que ele é seu amigo do peito afinal de contas). Os cientistas podem não conseguir atribuir a localidade e a velocidade de uma particula ao mesmo tempo, mas com certeza não discordam sobre quanto mede Meia Hora de Boi.


PS: Infelizmente quando ouvi pela primeira vez essa linda medida, imediatamente me recordei de outra medida, a Meia Hora de Bunda. Exemplo meramente ilustrativo: “Por que você não cala essa sua boca e vai dar meia hora de bunda???”

A BOCA PEQUENA quando alguém fala de evolução, ou melhor, em evoluir, o que vem à cabeça é de algo que vai de um estágio mais básico e inferior para algo mais complexo e superior. Uma transição clara de algo pior para algo melhor, quase que um progresso óbvio de como as coisas melhoram no decorrer do tempo. Bom, existem alguns problemas de base nesse processo que costuma contaminar os raciocínios posteriores, que vem grudados como rêmoras no pensamento dos nossos amigos cientificistas.

Podemos reduzir os dois modelos mais famosos (no ensino médio [de pessoas da minha faixa etária pelo menos]) de evolução das espécies a duas visões distintas do finalismo. As espécies lamarckistas são finalistas a priori e as darwinistas são finalistas a posteriori, ou seja, uma espécie darwinista se fode por 231.456 gerações até um desgraçado desenvolver uma mutação que faz sua espécie de peixinho ósseo nadar mais rápido para comer outra espécie mais infeliz de peixinho ósseo. O lamarckista apenas vai seguindo em direção à sua devida perfeição, girafas ficam com o pescoço cada vez mais longo para alcançar as folhas das árvores, etc. Para Lamarck é o ambiente que adapta a espécie e não uma mutação maluca que, por acaso, fez aquela espécie se adaptar melhor ao ambiente.

A evolução Pokemón é um ótimo exemplo de como funciona a evolução progressista. Vemos na imagem as três fases consecutivas de um espécime: O Goty, o Gotozo e o MEGA-LORD DO UNIVERSO.

A evolução Pokemón é um ótimo exemplo de como funciona a evolução progressista. Vemos na imagem as três fases consecutivas de um espécime: O Goty, o Gotozo e o MEGA-LORD DO UNIVERSO.

Bom, não acho que seria grande problema se isso estivesse estrito à evolução das espécies, o problema é querer aplicar isso a tudo. Existe um ranço progressista em cada um de nós, uma voz que prega a melhoria constante das coisas e um juízo neutro, quase que absoluto, que define como essa melhora opera. Geralmente crescemos com predisposições teleológicas, porque são explicações mais reconfortantes de mundo. Mas na dicotomia Adaptação e Caos X Progresso e Ordem eu fico com a primeira dupla, não só porque soam mais divertidos, mas porque nos ajudam a entender melhor o cosmos sem tentar encaixá-lo em uma regra absoluta e artificial.

GOSTO DE PENSAR na experiência de vida comum enquanto uma grande vontade cósmica de martelar sabedoria em nossas cabeças impenetráveis e, às vezes, um prego entra. Uma das virtudes mais elevadas, na minha humilde opinião, capazes do ser humano atingir é a humildade.  O comum quando consideramos o embate entre humildade e pretensão é achar que a segunda se configura apenas enquanto uma auto-afirmação no sentido de se achar o fodão. Mas como posto há pouco, talvez essa coisa não se configure tão facilmente assim. Existe uma forma mais vil, pois oculta, de pretensão.

Busão Trouxa

Estava eu atravessando uma famosa avenida no coração de São Paulo. O semáforo de pedestres tinha acabado de fechar quando avisto ao longe, do outro lado da avenida, o meu ônibus. Pensei “não consigo pega-lo, está meio longe, não dá tempo de chegar no ponto”. Falha de pretensão do segundo grau, o oculto. Quem sou eu para dizer que não ia conseguir? Eu tenho o conhecimento total para saber que tudo ia dar errado? Enfim, como de fato consegui chegar no ponto antes do ônibus, me senti vitorioso. Entrei no busão vestido do orgulho dos leões pensando “Hehehehehe! Acabo sair de outro ônibus, vou chegar em casa rápido e ainda tenho a integração do bilhete único. Hoje, Pedro Moreira Graça, você venceu o destino. Você é imbatível !!!”. Fui passar o bilhete e o confundi com outro bilhete que eu tinha no bolso, me dei conta ao ver os trágicos R$ 3,00 piscando na tela da catraca.

Através do mesmo objeto, de início o ônibus perdido e depois o ônibus dominado, tive uma lição de humildade que cessou toda a pretensão que me possuía.  Me senti nu, eu estava confuso, abatido, sozinho. Todo o prazer de conseguir pegar o ônibus que ia me deixar em casa deixou o meu corpo, como quem despe uma luva. O eco da humildade que me faltou, nas duas posições, permaneceu na cabeça. Eu era um nada, apenas um receptáculo para a pretensão das duas formas, ignorante do funcionamento total do mundo.

ANO PASSADO, perto do meu aniversário, a minha tia morreu. Não digo faleceu pois me soa pouco sério, diminui o fato, como se fosse algo que vai embora quando você abana irritadamente as mãos como quem espanta uma mosca. Falecer não tem o peso irremediável que a palavra morte traz consigo, e esse peso é importante. Até hoje me pego pensando nela e nas escolhas que fez, em como decidiu ser e como ela era. Uma pessoa difícil, cheia de razões e que dizia com todas as letras que se colocassem o mundo nas mãos dela, ela resolvia tudo. Ela decidiu ser daquele jeito e seguiu em frente, me parece mais um projeto estético do que de vida, mas algumas pessoas tomam suas escolhas e ações mais a sério do que a vida em si. Elas são maiores que a vida, e às vezes a vida acaba com elas.

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A cestinha que a doida da minha tia deixava pendurada na porta da cozinha, portando sacolas de supermercado dobradas até formar um triângulo.

Estava conversando com o Stan próximo disso, e ele me disse em seus breves surtos de lucidez “as pessoas tem a obrigação de ser da hora, se o cara for incapaz pelo menos tem que ter a obrigação de continuar tentando” eu concordei. Cada um tem o dever de ser maneiro, ou morrer tentando. A minha tia não era maneira porque era uma pessoa amável (embora fosse) ou conciliadora ou passiva (o que não era), ela era maneira porque era autenticamente ela mesma. E talvez isso tenha acabado a matando. É grande o peso de ser autêntico, de ter essa força na cara que você vira para o mundo, de engolir cuspe para seguir sendo você ao máximo apesar das forças contrárias. É uma força muito potente, mas que desgasta, que vai queimando. Me pego pensando nos pequenos propósitos que somos obrigados a nos dar para seguir existindo, pequenas metas, pequenos sonhos grandiosos, pequenas concessões, pequenas mesquinharias. Desde cedo me impus a obrigação de ser autêntico, talvez uma besteira que com os anos acaba cessando, mas é a minha besteira, e através dessa vontade, dessa potência em seguir existindo do meu jeito, eu sei que tento ser um cara maneiro.

FALA-SE MUITO sobre uma suposta nobreza inerente aos animais. Diz-se que uma águia é altiva, um cavalo garboso, fala-se muito dos inteligentíssimos golfinhos, etc. Esta projeção de qualidades humanas em animais é comum, recorrente e sistemática, quase que uma pandemia, uma derivação da nossa incapacidade de observar a natureza a não ser pelo metro humano. Partindo deste princípio, vamos analisar dois animais, símbolos internos à grande noção de brasilidade. O macaco e o papagaio.

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Essa duplinha do barulho vai bater a sua carteira e ficar rindo da sua cara, durante horas e horas e horas e horas.

Da família dos psitacídeos, reza a lenda que os papagaios são animais extremamente inteligentes e comunicativos. Não sei desde quando ficar imitando som de telefone e repetindo os palavrões que o seu irmão mais velho ensina significa que alguém é inteligente ou comunicativo. O mesmo pode ser dito das araras, que não passam de primos maiores, mais coloridos e mais violentos que os pequenos papagaios. A mera capacidade de ficar repetindo a mesma palavra durante horas a fio não demonstra a inteligência inata desse animal nobre e desenvolvido, só comprova uma fixação patológica e, uma necessidade vil de encher o saco do próximo.

Macacos são emblematicamente desprovidos de moral e caridade cristã. Eles são pequenos anarquistas sem o sonho de um mundo melhor. Ao observar o macaco, bonitinho, engraçadinho, agitado, é natural sentirmos algum tipo de empatia para com esse animal tão  parecido conosco. Até ele jogar merda em alguma excursão de colégio ou começar a berrar assustadoramente enquanto fica pulando no mesmo lugar. Os macacos são os trombadinhas da natureza mas, ao contrário de sua contrapartida humana, eles causam apenas por causar. Ele é o único animal, além do ser humano (o pior animal de todos), capaz de se masturbar animadamente enquanto  olha fixamente nos seus olhos.

Se formos pensar que estes animais são nobres no sentido de serem capazes de tomar o que querem à força, estuprar as mulheres de seus inimigos, jogar restos de comida no chão e mijar quando quiserem onde bem entenderem, bem, aí eles são bem nobres mesmo. Tentar adaptar esse animais a um ideal romântico de nobre enquanto educado, fiel, dono de belos modos e um afiadíssimo senso de justiça, bom, aí não encaixa muito bem não.