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ACHO QUE grande parte da função do trabalho categorial, classificatório, é parar de pensar sobre a coisa categorizada. Não estou falando apenas, mas também, do desvio de função comum aos departamentos de uma empresa: “esta não é a minha função” de quando se utiliza esse artifício para jogar a pica para outra pessoa, movimento que no final das contas, quando se está de fato envolvido no trabalho moralmente, acaba sendo um problema seu também, e isso fala mais sobre a sua postura moral para com o todo do que da estrutura funcional da empresa. O problema geral que quero tratar aqui, que empobrece o pensamento sobre um objeto, se aplica mais claramente quando se dá por encerrada uma questão a depositando adequadamente em uma supra categoria que não explica muito, como por exemplo classificar um problema enquanto “cultural”, muito comum e muito inútil hoje em dia na segunda década do segundo milênio da era cristã no calendário gregoriano.

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Saber onde as coisas devem ir não quer dizer que você sabe o que fazer com elas.

Peguemos a noção de algo ser cultural, essa denominação sequer pertence a uma categoria mesma por poder significar distintas áreas não apenas do conhecimento dos doutos mas também do senso comunzão de nois aqui do ponto de ônibus, com o qual trabalhamos diariamente. Cultura pode significar no mesmo movimento povo, erudição, peculiaridade, tradição, nação, entre outros variados sentidos mais vazios como a função publicitária alimentada de uma noção de pertencimento materialista colecionista, como por exemplo a cultura sneaker. O trabalho categorial na maior parte das vezes encerra o trabalho de pensamento sobre o objeto, o que não é necessariamente ruim, posto que pode ser muito útil parar de pensar sobre algo, mas a mera coleção de conceitos devidamente categorizados, especialmente quando as categorias não são fruto de questionamento sério, não é um trabalho de fato, e pode funcionar como um arraigamento vil de supra noções não apenas inúteis, como também daninhas, pois além de descartar apressadamente o pensamento sobre os objetos mesmos, se deposita cada vez mais crença em uma superestrutura que continua imune ao pensamento sério.

FALA-SE MUITO sobre uma suposta nobreza inerente aos animais. Diz-se que uma águia é altiva, um cavalo garboso, fala-se muito dos inteligentíssimos golfinhos, etc. Esta projeção de qualidades humanas em animais é comum, recorrente e sistemática, quase que uma pandemia, uma derivação da nossa incapacidade de observar a natureza a não ser pelo metro humano. Partindo deste princípio, vamos analisar dois animais, símbolos internos à grande noção de brasilidade. O macaco e o papagaio.

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Essa duplinha do barulho vai bater a sua carteira e ficar rindo da sua cara, durante horas e horas e horas e horas.

Da família dos psitacídeos, reza a lenda que os papagaios são animais extremamente inteligentes e comunicativos. Não sei desde quando ficar imitando som de telefone e repetindo os palavrões que o seu irmão mais velho ensina significa que alguém é inteligente ou comunicativo. O mesmo pode ser dito das araras, que não passam de primos maiores, mais coloridos e mais violentos que os pequenos papagaios. A mera capacidade de ficar repetindo a mesma palavra durante horas a fio não demonstra a inteligência inata desse animal nobre e desenvolvido, só comprova uma fixação patológica e, uma necessidade vil de encher o saco do próximo.

Macacos são emblematicamente desprovidos de moral e caridade cristã. Eles são pequenos anarquistas sem o sonho de um mundo melhor. Ao observar o macaco, bonitinho, engraçadinho, agitado, é natural sentirmos algum tipo de empatia para com esse animal tão  parecido conosco. Até ele jogar merda em alguma excursão de colégio ou começar a berrar assustadoramente enquanto fica pulando no mesmo lugar. Os macacos são os trombadinhas da natureza mas, ao contrário de sua contrapartida humana, eles causam apenas por causar. Ele é o único animal, além do ser humano (o pior animal de todos), capaz de se masturbar animadamente enquanto  olha fixamente nos seus olhos.

Se formos pensar que estes animais são nobres no sentido de serem capazes de tomar o que querem à força, estuprar as mulheres de seus inimigos, jogar restos de comida no chão e mijar quando quiserem onde bem entenderem, bem, aí eles são bem nobres mesmo. Tentar adaptar esse animais a um ideal romântico de nobre enquanto educado, fiel, dono de belos modos e um afiadíssimo senso de justiça, bom, aí não encaixa muito bem não.

SEU HABITAT é nas grandes cidades, onde através de algum instrumento estatal ele serve para educar e conscientizar o ser humano médio de seus deveres cívicos. O Palhaço Moralista pode vir vestido de palhaço, mímico ou, mais comumente, uma linda mescla dos dois. Ele serve para educar a atravessar na faixa, jogar o lixo no lixo, não bater nos idosos, enfim, ele é o agente moralizador em um estado civil que a princípio não põe o dedo na educação de seus humaninhos, apenas na instrução.

Os idealizadores desse instrumento moralizante provavelmente pensaram “Qual a figura mais detestada que conhecemos? Como, com baixo orçamento e mão de obra barata, podemos humilhar, assustar e acossar moralmente os cidadãos, assim os transformando em  pessoas melhores?”.

Quando a culpa está presente o Palhaço Moralista está à espreita.

Quando a culpa está presente o Palhaço Moralista está à espreita.

Assim nasceu o palhaço moralista, o braço longo do imperativo categórico. Duas tradicionais maneiras de controlar a moral e os bons costumes no coração dos seres humanos são expressas nele, a culpa judaico-cristã e a humilhação pública, a segunda mais comum como termômetro social em sociedades extremo-orientais.

Quando você não entrega aquela maleta cheia de dólares para a polícia e preocupado olha para o lado, é o Palhaço Moralista que está fazendo “Não, não.” triste com a cabeça. Quando você engravidou sua namoradinha e decide na mesma hora tentar a sorte na cidade grande, sem avisar nem a sua mãe, é o Palhaço Moralista, triste, que pega a sua passagem quando você está entrando no ônibus na rodoviária de Ibirá. Quando você cola o chiclete embaixo da cadeira do cinema, é o Palhaço Moralista, triste, que cega seus olhos com a lanterninha. A sociedade só funciona aos trancos e barrancos porque todos temos um medo inconsciente do Palhaço Moralista metaforicamente nos impedir de atravessar fora da faixa.

NADA mais lindo do que o sentimento de “Eu mereço”. Ele nos autoriza a cometer indulgências exorbitantes, como no meu caso recente: “Foda-se, eu mereço um pote de picles de pepino suave da marca Hemmer, só custa R$ 9,34.”. Ele vem da necessidade básica de prazer moral e físico. Moral pois costuma autorizar-se num processo meritocrata, que encaixe em nossa justiça cosmológica.

Mas cuidado, ele não deve ser confundido com o vil “Como Assim Eu Não Mereço!?”. Exemplo: “Meu amigo vai tocar com sua banda cover de The Cramps no Inferno da Rua Augusta. COMO ASSIM eu não sou VIP?”. Esse sentimento é baixo e passa pelas mesmas esferas de merecimento social auto pronunciado, mas se perde no caminho.

ATENÇÃO, todo “Eu Mereço” deve conquistar as quatro virtudes cardeais antes de realizar-se plenamente.

O “Eu Mereço”, de fato, é um processo interno que se exterioriza num rodízio (inferior) de Sushi, num chocolatinho na hora errada, numa cervejinha terça à noite. Ele perpassa as virtudes cardeais e chega do outro lado íntegro, limpo. Se permitir um prazer é possivelmente a maior vitória da vida adulta, um brado de independência, um belo de um “Olá!” para a autonomia autêntica. Só tomem cuidado com o alcoolismo e os quilinhos a mais, meus caros jovens adultos.