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ACHO QUE grande parte da função do trabalho categorial, classificatório, é parar de pensar sobre a coisa categorizada. Não estou falando apenas, mas também, do desvio de função comum aos departamentos de uma empresa: “esta não é a minha função” de quando se utiliza esse artifício para jogar a pica para outra pessoa, movimento que no final das contas, quando se está de fato envolvido no trabalho moralmente, acaba sendo um problema seu também, e isso fala mais sobre a sua postura moral para com o todo do que da estrutura funcional da empresa. O problema geral que quero tratar aqui, que empobrece o pensamento sobre um objeto, se aplica mais claramente quando se dá por encerrada uma questão a depositando adequadamente em uma supra categoria que não explica muito, como por exemplo classificar um problema enquanto “cultural”, muito comum e muito inútil hoje em dia na segunda década do segundo milênio da era cristã no calendário gregoriano.

mesa

Saber onde as coisas devem ir não quer dizer que você sabe o que fazer com elas.

Peguemos a noção de algo ser cultural, essa denominação sequer pertence a uma categoria mesma por poder significar distintas áreas não apenas do conhecimento dos doutos mas também do senso comunzão de nois aqui do ponto de ônibus, com o qual trabalhamos diariamente. Cultura pode significar no mesmo movimento povo, erudição, peculiaridade, tradição, nação, entre outros variados sentidos mais vazios como a função publicitária alimentada de uma noção de pertencimento materialista colecionista, como por exemplo a cultura sneaker. O trabalho categorial na maior parte das vezes encerra o trabalho de pensamento sobre o objeto, o que não é necessariamente ruim, posto que pode ser muito útil parar de pensar sobre algo, mas a mera coleção de conceitos devidamente categorizados, especialmente quando as categorias não são fruto de questionamento sério, não é um trabalho de fato, e pode funcionar como um arraigamento vil de supra noções não apenas inúteis, como também daninhas, pois além de descartar apressadamente o pensamento sobre os objetos mesmos, se deposita cada vez mais crença em uma superestrutura que continua imune ao pensamento sério.

MINHA PATROA certa vez fez uma receita de molho de tomate que parecia tanto um molho de tomate que sequer era um molho de tomate, mas um molho de beterraba e cenoura. O curioso é que visualmente o molho parecia mais real do que um molho de tomate de verdade, que nunca tem aquele vermelho profundo dos comerciais. A receita veio do programa de culinária da Bela Gil, irmã da mais famosa Preta Gil, programa esse que obviamente passa no canal de tv a cabo GNT. Você poderia me fazer algumas perguntas sobre o prato, tais quais: “O molho, afinal de contas, fica gostoso? É parecido com o molho de tomate tradicional que estamos acostumados? Este molho vem de séculos de tradição e aperfeiçoamento como o molho de tomate tradicional?” E eu responderia: “Bom, na verdade não interessa muito isso para eu chegar onde quero com esse texto aqui mas, bem, talvez a terceira pergunta…”

beterraba

Uma cenoura e uma beterraba não formam um super tomate.

A relação dos humanos e também de outros mamíferos (como constatado através de cuidadosa observação empírica de cachorros roubando mistos quentes, por exemplo) com comida não funciona na base da simples nutrição, não se busca um ou outro alimento com a clara noção de aumentar a sua expectativa de vida, se busca na maioria das vezes o simples prazer de comer algo gostoso, embora a minha propensão de querer só comer salada alguns dias possa indicar certo apetite funcional que tenta acrescentar alguns anos à minha vida desregrada e errática. O processo que bela Gil desenvolve em seus pratos, sendo ela nutricionista de formação mista com culinária, não segue essa tendencia natural de comer algo gostoso, como seria o natural de um programa sobre comidas, mas ela utiliza a fórmula da teoria acima das coisas, de cima para baixo, como uma marreta na bigorna da ciência tentando aprumar a chapa metálica e disforme que constitui o humano. Qualquer aplicação excessivamente cientificista sobre coisas não científicas funcionam desta forma, se enxerga algo e se tenta emendar este algo a partir de outro conjunto valorativo que não necessariamente tem a ver com como a coisa funciona, se este método funciona ou não não pode ser determinado cientificamente, mas continuam tentando como se fosse.

Também existe algo neste exemplo que pode falar sobre o processo criativo, através das lentes da nutrição saudável existia a necessidade de um substituto do molho tradicional de tomate, a solução veio pela junção de dois vegetais teoricamente mais saudáveis, o aspecto visual foi o que amarrou a cenoura e a beterraba, com o intuito final de parecer mais tomate que o tomate e não ter gosto de nada no final das contas, mas o manjericão e o queijo até que enganam, um pouco.

INFRADETERMINAÇÃO no léxico da epistemologia das ciências duras (naturais) envolve a noção de um olhar certeiro, um buscar algo no que se vê. Muito do que acho belo no relativismo cognitivo vem da noção deste conceito e análise cuidadosa desse processo. Infradeterminar é ver o que tem que encaixar e, do observado, saber descartar o que serve e o que não serve. Isso nas ciências duras é absolutamente necessário, quanto mais as observações vão ficando cada vez mais abstratas mais você precisa observá-las de acordo com um tipo específico de lente que lhe permita ver algo. Importante sempre lembrar que o conjunto de crenças objetivas que permitem interpretar adequadamente o observável não é algo que nasce com o ser humano pelo simples fato dele ser um Ser pensante, é uma construção intelectual de crença que se deu aos poucos, é uma redução teórica feita para uma suposta construção de conhecimento, quando tomada no âmbito das ciências duras.

berinjela

De acordo com suas predisposições teóricas, ao observar os mesmos fenômenos, algumas pessoas enxergam o padrão dos losangos, outras o dos quadrados, outras uma berinjela.

Um dos problemas do uso da infradeterminação é o problema da indeterminação dos dados à teoria, vejamos: 1. Um dado pode ser interpretado de múltiplas formas por múltiplas hipóteses diferentes; portanto 2. Como uma teoria pode ser interpretada através de dados? Bom, teorias e conjuntos de teorias são construtos complexos, interdependentes, mutáveis, grosso modo não temos todas as ferramentas e base teorica para passar por cima da crença na teoria. No final das contas, é um chute, como todo bom cientista deveria saber. O que nos leva a outro chute, uma extrapolação metodológica, segue.

Um dado observado pela lente das ciências humanas não está livre de infradeterminação, além do mais ele pode se confundir com outros processos epistemológicos desconhecidos do observador, como por exemplo a temível teleologia. Quando um pensador incauto interpreta um dado (sendo das ciências duras ou das flexíveis) ele não costuma se dar conta de todo o construto de crenças e processos metodológicos que levaram ele a utilizar das ferramentas e exemplos que lhe são tão caros, mas deveria ter a obrigação moral de ter alguma noção do tamanho da encrenca. O dado não foi feito para explicar a teoria que você usa, nesse ponto concordo com o Velho Sir Karl Popper, em sua distinção entre ciência e pseudo-ciência (especialmente em sua atenção ao falibilismo). Vale notar que quando o pensador incauto pratica a infradeterminação rasteira (que não se enxerga enquanto infradeterminação) quem perde é um dos dos processos metodológicos mais queridinhos das ciências humanas, a dialética.

Um dos problemas principais da infradeterminação rasteira é a simples inversão causal, ao invés de os dados servirem para testar a teoria enquanto ela tenta explicar um fenômeno, ele é usado para corroborar uma teoria estanque, encastelada, capaz de explicar tudo dentro de sua rede imutável e onipotente, nesse processo destruindo o debate entre teorias concorrentes que não vira mais um caminho comum para a construção de um conhecimento possível, mas mais se assemelha a um par de tilápias se debatendo no fundo de um bote.

UMA CENA HIPOTÉTICA: Você vê algum compartilhamento na rede, observa alguém postar uma foto, lê um comentário e comenta logo em seguida, algo nos termos aproximados: “Na verdade o que faz o refrigerante ficar sem gás é o equilíbrio da pressão interna da garrafa, então tanto faz se você fecha a garrafa com muita ou pouca força, o que muda é o tanto de líquido que está dentro da garrafa (quanto menos líquido mais espaço para o ar dentro da garrafa, portanto ao entrar em equilíbrio com a pressão interna da garrafa o refrigerante vai ficar com pouco gás, não importa a força da “tampada” que você der na garrafa)”. Coisas que você não está fazendo ao escrever esse tipo de comentário: Sendo engraçado, passando conhecimento, desenvolvendo um diálogo, sendo uma pessoa sociável, se mostrando ser uma pessoa inteligente.

O que deve ser mais curioso para quem faz esse tipo de comentário corriqueiramente (e por vezes eu fui esse tipo de pessoa) é a ultima observação supracitada, soar inteligente. Existe uma ideia romântica do gênio, do indivíduo com poucas aptidões sociais que é capaz de através de seu intelecto chegar onde poucos humanos na história conseguiram, visionários destemidos que agraciados com clareza e propósito em seus focos, quebram barreiras e mostram algo novo e incrível para o mundo. Quando se faz um comentário como o hipotético acima, você absolutamente não está sendo nada disso.

Seu amigo saudosista postou uma foto do jaspion, a sua correção dos comentários da foto só mostram como você é um babaca não o seu conhecimento dessa famosa série japonesa.

Seu amigo saudosista postou uma foto do jaspion, a sua correção dos comentários da foto só mostram como você é um babaca e não o seu conhecimento sobre essa famosa série japonesa.

A minha mãe usa um termo que confesso não saber da onde veio que é o Deitar Sabença, que pode ser aplicado a esse tipo de ação de ensinar a alguém o erro em seus comentários, fotos, piadas, etc. O que se ensina a alguém através deste tipo de atitude é geralmente a sua própria falta de capacidade e argúcia em entender cinismos, sarcasmos e formas análogas. Quando você deita uma sabença você não está dizendo muita coisa sobre a pessoa que teve a sabença deitada sobre, você está se revelando uma pessoa muito pomposa e orgulhosa de seu próprio conhecimento, conhecimento este que geralmente vem de fontes externas ao seu próprio estudo, ao seu próprio debruçar-se sobre, conhecimento enfim que se visto de perto e com atenção,  nem conhecimento é. Deitar Sabença, na maior parte das vezes, é uma reprodução de factóides adquiridos por você através dos anos, e você pode ter orgulho dos vários factóides adquiridos por você através dos anos, eles podem realmente ser admiráveis mas, a sua falta de capacidade de interpretação de contexto, direção, ironia, humor, discurso, narrativa, perspectiva, etc. Provavelmente é mais admirável que o seu relicário de informações sobre cultura pop e cientificismos arraigados

QUANDO EU ERA adolescente, fiquei fascinado com a ideia das medidas. Sobre como inventaram que um litro é um litro, um metro é um metro, etc. Achei incrível não existir um parâmetro neutro para medir as coisas e que só medimos algo através de bases mais ou menos arbitrárias, embora nossos amigos de jaleco tentem inventar padrões que pareçam neutros, vício do maldito objetivismo. Nada nos impede (a não ser talvez o bom senso) de usar uma caneta bic cristal como medida de comprimento ou massa (enquanto escrevo essas palavras acabo de jogar “quanto pesa uma caneta bic” no google e só consegui uma referência a como as tais canetas são a prova de que existem extra terrestres entre nós). Eu por exemplo, meço mais ou menos 11 canetas bic cristal.

O boi zebu, a medida mais neutra encontrada empiricamente.

O boi zebu, a medida mais neutra encontrada empiricamente na natureza natural.

Recentemente a minha querida amiga Manu Barem me deixou ainda mais perplexo com uma nova noção de medida, a famosa (entre o povo que cria gado) “Meia Hora de Boi”. Pelo que entendi consiste em abrir a porteira e, durante meia hora, deixar a boiada passar. Se existe um tamanho padrão de porteira ou se é conhecido o fluxo médio de cabeças de gado que passam por tal porteira eu desconheço. O que achei mais fascinante nesta medida é que a sua constante não é a massa ou o comprimento, nem mesmo o número de bois. A constante é o tempo. Você negociou com seu compadre e resolveu trocar um tanto de terra que tava sobrando por meia hora de boi, vai você lá falar com o capataz dele, ele abre a porteira e deixa ela aberta meia hora (uns dois minutinhos a mais, que ele é seu amigo do peito afinal de contas). Os cientistas podem não conseguir atribuir a localidade e a velocidade de uma particula ao mesmo tempo, mas com certeza não discordam sobre quanto mede Meia Hora de Boi.


PS: Infelizmente quando ouvi pela primeira vez essa linda medida, imediatamente me recordei de outra medida, a Meia Hora de Bunda. Exemplo meramente ilustrativo: “Por que você não cala essa sua boca e vai dar meia hora de bunda???”

NO ANO de nosso senhor de 1994, baseado no romance de Michael Crichton, Steven Spielberg trouxe vida ao sonho de inúmeros meninos pré-púberes. Para a minha geração, Jurassic Park ajudou a fundamentar e sedimentar a imagem de que os dinossauros foram os animais mais maneiros a habitar a face da terra. Apesar da figura assustadoramente imponente do Tiranossauro Rex, as verdadeiras estrelas do filme, e do nosso imaginário eternamente infantil, são os Velociraptors. Dotados de afiadas garras nas patas traseiras e uma impressionante inteligência, comprovada no filme por sua habilidade de abrir portas (nada muito útil para entender Filosofia Analítica, mas bem razoável comparada a um labrador). Eles eram ágeis, ferozes e nobres (do tipo que saqueia o seu vilarejo e taca fogo em tudo) como nada que conhecíamos antes. Porém, depois de anos de pesquisas científicas o que descobrimos? Que eles tinham penas e eram consideralvelmente menores do que no filme, mais ou menos da altura de um peru.

raptor x ciencia - alta

Não tenho nada objetivamente contra as pesquisas que corroboram as teorias evolutivas que mostram que os dinossauros eram precursores das aves. Elas são bem razoáveis e as acompanho com um olhar leigo, carinhoso e interessado. Mas cada vez mais o Velociraptor não se configura como uma máquina suave de escamas, garras e morte. Hoje em dia ele parece mais uma espécie de avestruz babaca. O antigo raptor era um ser alienígena, um animal que não se parece com nada que habita a terra hoje em dia, e grande parte dessa aura de estranhamento e admiração que o animal trazia consigo simplesmente cessa de existir quando colocado nesse contexto. É muito triste ser confrontado com essa noção de que o animal mais animal que existiu na face da terra, pode ser comparado com uma galinha. Afinal de contas ao invés de caçar herbívoros gigantes com habilidade felina, ele provavelmente ficava ciscando carniça sob as sombras da megaflora. É como reconhecer o seu amor platônico da sétima série, anos depois, toda embarangada e fazendo compras no supermercado Dia%.

raptor esboço - LIMPO

PROVAVELMENTE você já se pegou dizendo/pensando a seguinte frase: “Meu! Justo hoje, só porque eu vim sem guarda-chuva, me cai esse toró meu!”. Vamos destrinchar esse raciocínio aí meu querido. Esse é o exemplo mais comum sobre como funciona o pensamento teleológico. Teleologia é a maneira de explicar as coisas através de seus fins últimos, por ex. a água foi feita para matar a minha sede, ou negativamente, a chuva só caiu agora porque é sexta-feira e eu estou saindo do trabalho para tomar um chopps (merecidíssimo!) com a galera da firma meu. É como constatar que os inúmeros anos de desenvolvimento do universo foram feitos para que a goiabeira existisse para que o Chico Bento possa roubar as goiabas do pomar do Nhô Lau (e talvez levar um tiro de sal no bumbum [o sal inclusive {fora funções auxiliares para levar a este fim} foi feito para servir de munição para o Nhô Lau]). Vários filósofos combateram a teleologia e suas reduções, consideradas injustas, utilitaristas, e anticientíficas.

A Goiaba e o Guarda-Chuva, os símbolos máximos da Teleologia.

A Goiaba e o Guarda-Chuva, os símbolos máximos da Teleologia.

Esse tipo de pensamento é um processo natural humano. É gostoso pensar que as coisas existem para nos servir, assim nos colocando no centro, e acima, da natureza. Esta posição nos dá o controle e o direito de usufruir tudo o que pode nos ser útil, ao mesmo tempo explicando tudo o que existe (a não ser, por exemplo, baratas). Enfim, é muito desconfortável pensar que foi o acaso, boiando à deriva num mar de c@os, que culminou nas coisas serem como são no atual estado do cosmos.

É muito mais agradável e morno pensar que tudo o que existe tem um propósito, a água pra beber, a comida pra comer, o ar pra respirar. Mas por incrível que pareça as coisas me parecem bem melhores se nascidas de uma tempestade caótica de acasos improváveis e absurdos. Às vezes ao dormir penso no grande c@os, e as coisas, como são, me soam mais mágicas do que uma mágica. Faz eu me sentir minúsculo, assustado e sem controle real de nada. Faz eu me sentir feliz.