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MINHA PATROA certa vez fez uma receita de molho de tomate que parecia tanto um molho de tomate que sequer era um molho de tomate, mas um molho de beterraba e cenoura. O curioso é que visualmente o molho parecia mais real do que um molho de tomate de verdade, que nunca tem aquele vermelho profundo dos comerciais. A receita veio do programa de culinária da Bela Gil, irmã da mais famosa Preta Gil, programa esse que obviamente passa no canal de tv a cabo GNT. Você poderia me fazer algumas perguntas sobre o prato, tais quais: “O molho, afinal de contas, fica gostoso? É parecido com o molho de tomate tradicional que estamos acostumados? Este molho vem de séculos de tradição e aperfeiçoamento como o molho de tomate tradicional?” E eu responderia: “Bom, na verdade não interessa muito isso para eu chegar onde quero com esse texto aqui mas, bem, talvez a terceira pergunta…”

beterraba

Uma cenoura e uma beterraba não formam um super tomate.

A relação dos humanos e também de outros mamíferos (como constatado através de cuidadosa observação empírica de cachorros roubando mistos quentes, por exemplo) com comida não funciona na base da simples nutrição, não se busca um ou outro alimento com a clara noção de aumentar a sua expectativa de vida, se busca na maioria das vezes o simples prazer de comer algo gostoso, embora a minha propensão de querer só comer salada alguns dias possa indicar certo apetite funcional que tenta acrescentar alguns anos à minha vida desregrada e errática. O processo que bela Gil desenvolve em seus pratos, sendo ela nutricionista de formação mista com culinária, não segue essa tendencia natural de comer algo gostoso, como seria o natural de um programa sobre comidas, mas ela utiliza a fórmula da teoria acima das coisas, de cima para baixo, como uma marreta na bigorna da ciência tentando aprumar a chapa metálica e disforme que constitui o humano. Qualquer aplicação excessivamente cientificista sobre coisas não científicas funcionam desta forma, se enxerga algo e se tenta emendar este algo a partir de outro conjunto valorativo que não necessariamente tem a ver com como a coisa funciona, se este método funciona ou não não pode ser determinado cientificamente, mas continuam tentando como se fosse.

Também existe algo neste exemplo que pode falar sobre o processo criativo, através das lentes da nutrição saudável existia a necessidade de um substituto do molho tradicional de tomate, a solução veio pela junção de dois vegetais teoricamente mais saudáveis, o aspecto visual foi o que amarrou a cenoura e a beterraba, com o intuito final de parecer mais tomate que o tomate e não ter gosto de nada no final das contas, mas o manjericão e o queijo até que enganam, um pouco.

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ANO PASSADO, perto do meu aniversário, a minha tia morreu. Não digo faleceu pois me soa pouco sério, diminui o fato, como se fosse algo que vai embora quando você abana irritadamente as mãos como quem espanta uma mosca. Falecer não tem o peso irremediável que a palavra morte traz consigo, e esse peso é importante. Até hoje me pego pensando nela e nas escolhas que fez, em como decidiu ser e como ela era. Uma pessoa difícil, cheia de razões e que dizia com todas as letras que se colocassem o mundo nas mãos dela, ela resolvia tudo. Ela decidiu ser daquele jeito e seguiu em frente, me parece mais um projeto estético do que de vida, mas algumas pessoas tomam suas escolhas e ações mais a sério do que a vida em si. Elas são maiores que a vida, e às vezes a vida acaba com elas.

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A cestinha que a doida da minha tia deixava pendurada na porta da cozinha, portando sacolas de supermercado dobradas até formar um triângulo.

Estava conversando com o Stan próximo disso, e ele me disse em seus breves surtos de lucidez “as pessoas tem a obrigação de ser da hora, se o cara for incapaz pelo menos tem que ter a obrigação de continuar tentando” eu concordei. Cada um tem o dever de ser maneiro, ou morrer tentando. A minha tia não era maneira porque era uma pessoa amável (embora fosse) ou conciliadora ou passiva (o que não era), ela era maneira porque era autenticamente ela mesma. E talvez isso tenha acabado a matando. É grande o peso de ser autêntico, de ter essa força na cara que você vira para o mundo, de engolir cuspe para seguir sendo você ao máximo apesar das forças contrárias. É uma força muito potente, mas que desgasta, que vai queimando. Me pego pensando nos pequenos propósitos que somos obrigados a nos dar para seguir existindo, pequenas metas, pequenos sonhos grandiosos, pequenas concessões, pequenas mesquinharias. Desde cedo me impus a obrigação de ser autêntico, talvez uma besteira que com os anos acaba cessando, mas é a minha besteira, e através dessa vontade, dessa potência em seguir existindo do meu jeito, eu sei que tento ser um cara maneiro.

MACARRÃO COM SALSICHA, Miojo e Ovo Frito, Miojo Apenas, Macarrão com Atum, Pão Francê com Leite Condensado, Leite com Groselha, Lasanha de Pão de Forma, Qualquer Coisa com Cremilly, Pudim de Pão, Arroz e Sardinha, Qualquer Coisa com Milho em Lata, Macarrão Massa de Ovos Renata Com Atum e Milho em Lata, Maionese de Seleta de Legumes, Qualquer Coisa com Seleta de Legumes, Catchup + Maionese = Molho Rosê, Qualquer Receita do Site Tudo Gostoso, Pão com Ovo, Creme de Leite + Maizena + Sal = Molho Branco, Arroz e Feijão com Macarrão, Pavê com Biscoito Champagne, Gelatina com Creme de Leite, Receitas que Contém Nescau.

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Você só precisa de uma cesta básica e uma boa dose de criatividade!

Comida de pobre não é culinária popular. Enquanto a culinária popular é observada pelo viés da gastronomia e da estética, a comida de pobre é pesquisada com as grossas luvas da antropologia urbana. É um engenho sem tradição que não deve nada a ninguém, que combina livremente os parcos ingredientes da comida processada. É seguir à risca uma receita que contém uma quantidade não recomendada pela OMS de creme de leite de caixinha. É fazer uma receita que veio impressa no creme de leite de caixinha. É uma culinária que prima pela ousadia na mistura de ingredientes comuns de sabores fortes, mas que olha para comidas exóticas com uma desconfiança perversa, e pretende continuar eternamente no conforto ameno do paladar infantil.

PS: Agradeço a minha amiga Thaise Oliveira, que ao descrever um prato que fez me abriu os olhos para este conceito importante para a cultura brasileira e suas problematizações instrínsecas.

VENHO AQUI explicar um conceito básico, embora pouco discutido, do comportamento humano. Em locais públicos humanos buscam se isolar de seus comuns. É por isso que quando você, com seu cabelo comprido e sua camiseta do Blind Guardian, entra com sua namoradinha num ônibus relativamente vazio, é difícil encontrar dois bancos, um ao lado do outro, vagos. Os passageiros não querem contato com os outros passageiros e procuram ficar sozinhos, assim se limitando à sua própria mediocridade para poder pensar sobre, seilá o que pessoas médias pensam, carros tunados, novela da band, car-system, enfim, em paz. E se há um banco público, um usuário certamente irá seguir a tendência de deixar um espaço vago entre ele e o próximo. É assim que o ser humano age, portanto, planejadores: façam sempre bancos em número ímpar! Já que um banco par, de quatro lugares, só tem dois lugares a principio, depois disso é questão de se acotovelar. Um banco de cinco lugares teria três lugares confortáveis antes de ficar desagradável para todos os envolvidos.

O suspeito como descrito para o retrato-falado.

Não sei se foi edital, licitação, decreto ou o quê, que instituiu para o município de São Paulo um projeto de pontos de ônibus tão bem pensado. Talvez tenha sido desenvolvido em tempos longínquos antes de algumas coisas que temos hoje em dia existirem, como por exemplo, chuva. Sempre que chove, o banco dos pontos de ônibus molha. Sempre, não importa a intensidade. Talvez esse fator antes era mitigado pelo fato de todo ponto de ônibus ter um backlight horrível, com propaganda horrível, que protegia as costas dos usuários e os bancos dos pontos, mas o ditador Al-Kash-Aab vetou a propaganda desenfreada nas ruas e, desde então, se uma leve garoa se aproxima, todos os bancos ficam imediatamente encharcados. Pelo menos ele tem um design arrojado que combina com 70% da arquitetura da cidade de São Paulo, se não pelos materiais e linhas, pelo estilo geral de extremo mal gosto estético.

PS: Um passarinho me contou que a próxima gestão municipal pretende trocar os atuais pontos de ônibus por palmeiras imperiais, mas só o tempo irá dizer.

COM O ADVENTO da internet, torrentz, legendas em PT-BR um dia depois do E07 S02 sair na gringa, TV com Pendrive e amigos nas midias sociais nos falando o que devemos assistir, perdemos a inocência de colar na videolocadora de havaianas e moletom numa sexta-feira chuvosa, sem saber que filme ver. São inúmeros os fatores que nos levaram a entrar nessa vala comum, mas os americanos inventaram um bom nome para um dos maiores responsáveis por isso. O famigerado “filter bubble”, que, a partir de suas escolhas anteriores, julga o que você deveria ou não ver. Limitando a sua escolha a coisas que você já conhece ou deveria conhecer.

Nada como um belo filme de Surf, manolo.

O que a locadora tem a nos ensinar? Bom, a locadora não obriga você a escolher uma coisa ou outra. Se você entra com os olhos atentos e o coração aberto em uma locadora, você vai para a estante que a sua predisposição atual o chama. Comédia, drama, cult, suspense, AÇÃO. Na locadora um filme é sim, julgado pela capa, e isso é sincero e bom.

Stan Molina outro dia foi à uma locadora sem saber o que queria ver, nisso avistou um belo de um filme de surf. Se ele ficasse no facebook, vendo as postagens dos seus amigos artistinhas, nunca que ele ia encontrar uma indicação desse belo filme de 2008. Livre como as ondas do mar, ele curtiu esse filme sem ajuda da internet.

SEMPRE TIVE um problema sério, talvez crônico, com hipérboles. Dizer com segurança “esse é o melhor cachorro quente do universo conhecido”, nunca foi algo que me veio naturalmente. Claro que com os anos fui aprendendo a dar uma exagerada aqui e ali, mas sempre tratei esse instrumento da retórica com desconfiança. E é por isso que admiro um açougue perto de casa. Coroando sua entrada existe uma faixa com os dizeres “ACEITAMOS CARTÃO DE CRÉDITO, QUALQUER VALOR”, que não tem nada a ver com o que eu estou falando aqui, o que interessa é a segunda linha da faixa que diz “AQUI VOCÊ FAZ UM BOM CHURRASCO”, não um ótimo churrasco, não o melhor churrasco das galáxias, apenas um bom churrasco. Achei digno.


Num raio de seis quadras desse sincero açougue você encontra: uma biboca com o cartaz “O MELHOR NHOQUE DE SÃO PAULO”, uma pastelaria que serve “O MELHOR PASTEL DE SÃO PAULO” e indo ao trabalho outro dia vi um furgão entregando na padaria “O MELHOR PUDIM DE SÃO PAULO”. Ou estou cercado de gênios da culinária ou existe algo errado com esse sistema de valoração. Eu prefiro ficar com UM BOM CHURRASCO do que com o melhor qualquer coisa. Eu posso confiar no simplesmente bom, talvez o bom seja melhor que o melhor.

Mas, para compensar, um amigo meu me contou de quando foi visitar Londres avistou um cartaz “The Best Kebab of London” e alguns metros de distância outro lugar, bem parecido com o primeiro, que tinha o cartaz “The Best Kebab in The World!”. Dessa segunda hipérbole aí eu gostei, essa segunda hipérbole aí eu achei maneira.