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UMA CENA HIPOTÉTICA: Você vê algum compartilhamento na rede, observa alguém postar uma foto, lê um comentário e comenta logo em seguida, algo nos termos aproximados: “Na verdade o que faz o refrigerante ficar sem gás é o equilíbrio da pressão interna da garrafa, então tanto faz se você fecha a garrafa com muita ou pouca força, o que muda é o tanto de líquido que está dentro da garrafa (quanto menos líquido mais espaço para o ar dentro da garrafa, portanto ao entrar em equilíbrio com a pressão interna da garrafa o refrigerante vai ficar com pouco gás, não importa a força da “tampada” que você der na garrafa)”. Coisas que você não está fazendo ao escrever esse tipo de comentário: Sendo engraçado, passando conhecimento, desenvolvendo um diálogo, sendo uma pessoa sociável, se mostrando ser uma pessoa inteligente.

O que deve ser mais curioso para quem faz esse tipo de comentário corriqueiramente (e por vezes eu fui esse tipo de pessoa) é a ultima observação supracitada, soar inteligente. Existe uma ideia romântica do gênio, do indivíduo com poucas aptidões sociais que é capaz de através de seu intelecto chegar onde poucos humanos na história conseguiram, visionários destemidos que agraciados com clareza e propósito em seus focos, quebram barreiras e mostram algo novo e incrível para o mundo. Quando se faz um comentário como o hipotético acima, você absolutamente não está sendo nada disso.

Seu amigo saudosista postou uma foto do jaspion, a sua correção dos comentários da foto só mostram como você é um babaca não o seu conhecimento dessa famosa série japonesa.

Seu amigo saudosista postou uma foto do jaspion, a sua correção dos comentários da foto só mostram como você é um babaca e não o seu conhecimento sobre essa famosa série japonesa.

A minha mãe usa um termo que confesso não saber da onde veio que é o Deitar Sabença, que pode ser aplicado a esse tipo de ação de ensinar a alguém o erro em seus comentários, fotos, piadas, etc. O que se ensina a alguém através deste tipo de atitude é geralmente a sua própria falta de capacidade e argúcia em entender cinismos, sarcasmos e formas análogas. Quando você deita uma sabença você não está dizendo muita coisa sobre a pessoa que teve a sabença deitada sobre, você está se revelando uma pessoa muito pomposa e orgulhosa de seu próprio conhecimento, conhecimento este que geralmente vem de fontes externas ao seu próprio estudo, ao seu próprio debruçar-se sobre, conhecimento enfim que se visto de perto e com atenção,  nem conhecimento é. Deitar Sabença, na maior parte das vezes, é uma reprodução de factóides adquiridos por você através dos anos, e você pode ter orgulho dos vários factóides adquiridos por você através dos anos, eles podem realmente ser admiráveis mas, a sua falta de capacidade de interpretação de contexto, direção, ironia, humor, discurso, narrativa, perspectiva, etc. Provavelmente é mais admirável que o seu relicário de informações sobre cultura pop e cientificismos arraigados

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EM ANTROPOLOGIA CULTURAL existe um jeito, talvez meio antiquado, de separar dois tipos de cultura por seus instrumentos de manutenção da obediência civíl. A Sociedade da Culpa e a Sociedade da Vergonha. Tradição não é um dos valores humanos mais, ahm, valorizados ultimamente, embora eu não saiba (mais por preguiça e falta de conhecimento mesmo) enumerar os motivos todos que culminaram no abandono desse velho valor. Basta dizer que é um dado presente para quem quiser se debruçar, mesmo que apenas um pouco, sobre o assunto e que com isso o velho modo de inculcar regras morais gerais na galera também acabou perdendo com esse movimento. Nas redes sociais por exemplo, existem moralidades conflitantes se debatendo continuamente (no sentido de um peixe que se debate no chão do barco mais do que uma discussão racional), mas não aparenta se desenvolver um conjunto de regras morais gerais. O que acontece é que hoje em dia cada indivíduo tem seu conjunto de valores morais mais ou menos pessoais, não existe uma regra moral vigente clara, e este debater não costuma gerar discussões positivas no sentido de criar uma nova regra moral geral.

O Macaquinho da Culpa e o Toelho da Vergonha.

O Macaquinho da Culpa e o Toelho da Vergonha.

A internet, com tudo o que ela trouxe de maluco, parece se configurar sem este suposto conjunto de regras morais, mas existe nela um espírito de Senso Comum que começa a mostrar suas asinhas. Parte deste espírito abstrato se configura em um método que pela maneira própria que a internet funciona é capaz de vigiar, julgar e punir no mesmo movimento, com uma velocidade um pouco assustadora. Se é possível dizer que a internet é uma sociedade, ela está se mostrando uma sociedade da vergonha ao invés de uma sociedade da culpa, onde o medo da repercussão de seus atos não é fundado em uma consciência interior, mas no receio de ser julgado e humilhado publicamente por seus iguais. Nessa configuração os atos morais não se prescrevem de acordo com regras fundantes internas, mas por uma noção de constante observação e punição (do e pelo próximo) sempre presente. Não interessa o que você sente em seu íntimo, o erro está em colocar algo moralmente execrável em público e, do mesmo modo que na internet as pessoas costumam não ter muita noção de até onde suas palavras podem chegar, elas no ato de julgar o próximo, também não medem a forma e a força de seus ataques.

COM O ADVENTO da internet, torrentz, legendas em PT-BR um dia depois do E07 S02 sair na gringa, TV com Pendrive e amigos nas midias sociais nos falando o que devemos assistir, perdemos a inocência de colar na videolocadora de havaianas e moletom numa sexta-feira chuvosa, sem saber que filme ver. São inúmeros os fatores que nos levaram a entrar nessa vala comum, mas os americanos inventaram um bom nome para um dos maiores responsáveis por isso. O famigerado “filter bubble”, que, a partir de suas escolhas anteriores, julga o que você deveria ou não ver. Limitando a sua escolha a coisas que você já conhece ou deveria conhecer.

Nada como um belo filme de Surf, manolo.

O que a locadora tem a nos ensinar? Bom, a locadora não obriga você a escolher uma coisa ou outra. Se você entra com os olhos atentos e o coração aberto em uma locadora, você vai para a estante que a sua predisposição atual o chama. Comédia, drama, cult, suspense, AÇÃO. Na locadora um filme é sim, julgado pela capa, e isso é sincero e bom.

Stan Molina outro dia foi à uma locadora sem saber o que queria ver, nisso avistou um belo de um filme de surf. Se ele ficasse no facebook, vendo as postagens dos seus amigos artistinhas, nunca que ele ia encontrar uma indicação desse belo filme de 2008. Livre como as ondas do mar, ele curtiu esse filme sem ajuda da internet.